Logorama, melhor curta-metragem de 2010
março 7th, 2010 § 0
Quem Quer Ser Milionário? (Slumdog Millionaire, 2008)
março 19th, 2009 § 0
Com muito atraso assisti o grande papador de prêmios em 2008. Melhor seria ter passado em branco. O Oscar não pisava na bola assim desde… 2005, quando galardoou o medonho Crash – No Limite.
Ana Maria Bahiana e Chico Fireman justificaram o oba-oba em torno da fita com o seu pretenso ar otimista, sendo “produto do seu tempo”, um “filme que o mundo precisa agora.” Não compartilho com essa linha de raciocínio.
Não vejo qualidades que possam ser enaltecidas, muito pelo contrário. Dos defeitos que saltam aos olhos, as falhas no roteiro, o didatismo, as personagens maniqueístas e superficiais, os diálogos constrangedores e a escatologia, nenhum aproxima-se da total falta de compromisso com que Danny Boyle filma a Índia. Em momento algum o diretor procurou entender o país retratado, a questão do Outro inexiste no longa. E isso encerra qualquer pretensão do longa de ser levado a sério.
Luís Miguel Oliveira escreveu um texto para o jornal português Público onde sintetiza com elegância e discernimento a visão de mundo que separa os grandes diretores de pessoas como Boyle.
“Dizer que Danny Boyle devia ter ido filmar os bairros de lata do seu próprio país em vez de ir filmar os da Índia, como têm argumentado algumas reacções indianas pouco agradadas com “Quem quer ser Bilionário?”, que hoje estreia nas salas portuguesas, não nos leva longe – até porque filmar bairros de lata é em geral actividade pouco apreciada, como em Portugal bem se vê pela indignação de tanta luminária opinativa aos filmes em que Pedro Costa foi filmar os bairros de lata do seu próprio país. É importante que se perceba que o que nos desgosta em “Quem quer ser Bilionário?” não é o bairro de lata, nem é a miséria, mas antes a pobreza do olhar com que Danny Boyle os filma. Num certo sentido, os indianos zangados têm razão: este filme podia ter sido feito em qualquer lado, exactamente da mesma maneira.
“Para além de macaquear uns quantos elementos (simples “efeitos”, na verdade) que com muito boa vontade podem ser entendidos como referência ao cinema de Bollywood (que agora caiu no goto como se fosse uma vaca sagrada: mas também há a Bollywood intragável no seu “kitsch” irredimiavelmente publicitário), para além disso, perguntávamos, que vê Danny Boyle na Índia que não visse noutro lado qualquer? Até a televisão é a mesma, é a televisão dos “formatos” e o “Quem quer Ser Milionário?”… Danny Boyle é daqueles cineastas que fazem preceder a discussão sobre o seu talento (nulo, diga-se de passagem) de uma discussão sobre a sua “visão do mundo”. Dá a impressão que nunca saiu de “Trainspotting“, que é assim que vê o mundo, apenas um grande “Trainspotting”, esteja-se onde se estiver. Se há alguma “proeza” em “Quem quer ser Bilionário?”, ela consiste apenas nisto: num espantoso trabalho de “torção” para fazer caber a Índia dentro da sua estreita visão do mundo. Boyle não foi à Índia, trouxe a Índia para dentro de “Trainspotting”, para dentro dos seus estereótipos sociais (ricos e pobres) e figurativos (os efeitozinhos “clipescos” e publicitários). É impressionante a insensibilidade do seu olhar, a falta de disponibilidade – é um filme cego, vê o que as palas que tem nos olhos lhe permitem ver.
“No contexto eufórico que aclama “Quem quer ser Bilionário?” como a oitava maravilha do mundo valerá a pena lembrar que outros cineastas ocidentais (mas enfim, não resistimos: verdadeiros cineastas) viveram as suas “viagens à Índia” com o tipo de disponibilidade que falta a Boyle, e com a modéstia (e a inteligência, e a sensibilidade) para construírem os seus filmes no balanço entre as certezas que traziam da Europa e aquilo que a Índia lhes revelou? Que “O Rio Sagrado” de Renoir (para mais um filme com uma perspectiva radicalmente ocidentalizada: são as memórias de um “casulo” na Índia colonial britânica) ou a “Índia” de Roberto Rossellini são filmes totalmente embebidos por um “mistério indiano”, um mistério perscrutado numa relação com a geografia (algo completamente ausente do filme de Boyle), com a religião, com a cultura, com a sociedade, com o povo – e que essa Índia, que não exclui a “miséria” (ver por exemplo o “Calcutá” de Louis Malle), é olhada com uma nobreza cinematográfica nos antípodas da vulgaridade de Boyle? Se, por alguma lei obscura (a lei do “só quer entreter”), se invalidar a aproximação do filme de Boyle aos de Renoir e Rossellini, temos à mão um cineasta americano que está bem longe de gozar de tão canónico estatuto. Wes Anderson, cujo último filme, “The Darjeeling Limited“, também se passava na Índia. Anderson filmava-a com uma ideia estética – as cores, os aromas, a paisagem, os templos – e fazia a ética decorrer dela. Boyle só tem uma ideia ética (uma imagem esterotipada do “terceiro mundo”) – naturalmente infere dela toda a (pobre) estética de “Quem quer ser Bilionário?”. Em “Darjeeling”, perto do fim, a personagem de Adrian Brody, depois de uma viagem em que nunca pareceu especialmente interessado no que o rodeava, dizia “nunca me vou esquecer do cheiro deste país” e falava do perfume a especiarias. Danny Boyle não conseguiu sentir mais do que o cheiro a merda. Cada um tem o nariz que tem.“
Breve em um cinema perto de você (ou não)
outubro 6th, 2008 § 0
Rápidos comentários acerca de quatro filmes que vi esses dias e que ainda não entraram em circuito comercial no Brasil.

Gomorra, 2008, de Matteo Garrone. Estréia nacional ainda indefinida.
Ganhador do Grande Prêmio do Júri de Cannes deste ano e aposta italiana na corrida pelo Oscar 2009, Gomorra – que passou há pouco tempo no Festival do Rio – é um filme sujo, violento, cru e realista. Acompanhamos cinco histórias que praticamente não interagem entre si, mas que são interligadas pelo poder opressor e implacável da máfia napolitana. O longa de Matteo Garrone, adaptado do best-seller homônimo de Roberto Saviano, vem sendo aclamado pela crítica, que fala até em renascimento do cinema italiano, e aprovado pelo público em geral. Admito que o filme é bom, possui alguns belos planos e boas atuações, contudo fiquei com a sensação de que estava vendo uma versão italiana de Cidade de Deus. Vale pela constatação de que existe máfia para além dos Corleones.

Na mira do chefe (In Bruges, 2008), de Martin McDonagh. Estréia dia 17 de Outubro de 2008.
Dois assassinos profissionais após executarem um difícil trabalho na Inglaterra aguardam novas instruções na insólita Bruges, localizada na Bélgica. Ken (Brendan Gleeson) quer aproveitar a oportunidade e conhecer melhor a histórica cidade; Ray (Colin Farrell), por sua vez, não vê a hora de sair daquela província. Com excelentes diálogos, ótimas atuações e um humor refinado, a estréia do dramaturgo Martin McDonagh como roteirista e diretor foi uma das mais gratas surpresas que tive em 2008.

Queime depois de ler (Burn After Reading, 2008), de Ethan e Joel Coen. Estréia dia 28 de Novembro de 2008.
Após o Oscar de Melhor Filme e Direção no ano passado por No Country for Old Man, os profícuos irmãos Coen assinam uma comédia no estilo de O Amor Custa Caro e O Grande Lebowski. A película não possui o fôlego do segundo, todavia é mais eficiente que o primeiro. A absurda premissa é apenas um pretexto para uma comédia de humor negro onde a ganância, a vaidade e a estupidez humana não encontram limites. Frances McDormand e, principalmente, Brad Pitt dão um show como empregados de uma academia de ginástica que fazem chantagem a personagem de John Malkovich. Obviamente não irá concorrer ao Oscar, porém já figura entre uma das melhores comédias do ano (juntamente com In Bruges).

Lars and The Real Girl, 2007, de Craig Gillespie. Estréia ainda indefinida.
Indicado ao Oscar de Melhor Roteiro Original, confesso que de início não me empolguei muito com a história do rapaz que namora com uma boneca inflável. Pareceu-me “filme de menina”, com moral edificante no final e tudo mais. Infelizmente não me enganei. Apesar da obviedade do roteiro, o longa é simpático e cativante. Boa pedida para um domingo chuvoso com a namorada.
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Gomorra *** (tralier)
In Bruges **** (trailer)
Burn After Reading *** (trailer)
Lars and a Real Girl ** (trailer)
10 filmes imperdíveis de 2008
setembro 18th, 2008 § 0
Nesta quinta-feira coloquei em dia meus feeds de trailers de filmes. A seguir os que aparentam valer a pena.
Estou com medo que o aclamado filme de Azazel Jacobs, que passou no IndieLisboa, em Maio, mas que não pude assistir, não entre no circuito comercial de Lisboa.
Um dramalhão com a bela Anne Hathaway. E a primeira candidata ao Oscar 2009 de Melhor Atriz acaba de surgir.
Com a cinebiografia de George W. Bush saberemos se a guinada à direta de Oliver Stone é a sério ou não.
Um dos diretores com mais indicações ao Oscar nos últimos cinco anos. E isso depois dos setenta anos de idade. Qual o segredo de Clint Eastwood?
A história do primeiro político estadunidense assumidamente homossexual contada por Gus Van Sant e estrelada por Sean Penn. Imperdível!
Após sete anos sem filmar, o diretor de Moulin Rouge! (finalmente) volta ao batente.
Ganhadora do Pulitzer, a polêmica peça do dramaturgo John Patrick Shanley é adaptada para o cinema. Outro forte candidato ao Oscar.
Em 2005 Jamie Foxx levou o Oscar de Melhor Ator por sua mimetização de Ray Charles. No ano seguinte foi a vez de Philip Seymour Hoffman, com Capote, e, em 2007, por sua interpretação do ditador Idi Amin, Forest Whitaker também levou a estatueta. Em 2009 acho que já temos um vencedor.
The Curious Case of Benjamin Button
Nove anos depois de Clube da Luta, Brad Pitt e David Fincher voltam a trabalhar juntos.
E, para fechar, um documentário brasileiro: Castelar e Nelson Dantas no País dos Generais
Sobre a péssima distribuição de filmes em Portugal
julho 14th, 2008 § 0

Os cinemas portugueses estão revelando-se uma decepção. Ou melhor, o cinemão, os blockbusters, os filmes-pipoca, que fique claro. Porque a programação da cinemateca e os ciclos de filmes-cabeça daqui são excelentes.
Quando cheguei em Lisboa, em meados Fevereiro, estreou Michael Clayton. Achei estranho, uma vez que o filme chegou no Brasil em DEZEMBRO, mas pensei que fosse um caso isolado. Ledo engano. No Country for Old Men e There Will Be Blood começaram a ser exibidos por cá apenas na véspera do Oscar. Até aí tudo bem, não tinha sido drasticamente afetado.

O problema é que, como 110% dos fãs do Batman, não vejo a hora de assistir The Dark Knight e ver a propalada “entrega total ao personagem” feita por Heath Ledger, no papel de Coringa. Fui atrás de comprar um ingresso antecipado, crente que o filme teria um estréia mundial (vide a data do pôster aí acima). Bem, o filme pode até ter uma première mundial, mas Portugal, definitivamente, não faz parte do pacote. Aqui o longa vai estrear somente no dia 24 de Julho. E agora, José? Como vou passar imune da avalanche de comentários que a película receberá entre o dia 18, quando estréia também em todo o Brasil, e o dia 24?
Outras vítimas da péssima distribuição que assola Portugal são WALL·E, que tem previsão de chegar em um longínquo 14 de Agosto, e Tropa de Elite, que, pasmem, aportou em salas lusas fim de semana passado.
É, acho que a solução será contentar-me mesmo com De Sica, Antonioni, Welles, Gordard e cia. Quando voltar para Fortaleza eu alugo os filmes que estarão sendo lançados aqui em DVD.
PS: Alguém sabe explicar o por quê dessa defasagem tão aguda?
A cerimônia do Oscar em 60 segundos
fevereiro 28th, 2008 § 0
A festa de 80 anos do Oscar deixou bastante a desejar. Uns atribuem a baixa audiência à falta de grandes blockbusters concorrendo à estatueta, outros acreditam que a greve dos roteiristas foi a grande vilã da noite, a paralisação foi encerrada apenas uma semana antes da premiação. O fato é que a festa foi fraquinha mesmo e por isso achei genial o resumo em 1 minuto feito pelo Mahalo Daily. Com vocês, os melhores momentos do Oscar 2008.
Via Tiago Dória.
Sweeney Todd: o melhor filme de 2007*
fevereiro 11th, 2008 § 0
Gosto muito dos universos idílicos criados por Tim Burton. Adoro Os Fantasmas se Divertem (1988) e Big Fish (2003), mas sem dúvida os melhores filmes do diretor foram realizados em parceria com Johnny Depp: Edward Mãos de Tesoura (1990), Ed Wood (1994), e A Noiva-Cadáver (2005).
Por isso a expectativa com Sweeney Todd: O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet era alta. O resultado é mais do que satisfatório e, com a iminência do Oscar, uma questão fica no ar: por que raios Sweeney Todd não foi indicado ao Oscar de Melhor Filme? Os Membros da Academia devem está ficando esclerosados, só pode. O musical de Tim Burton é muito superior do que, por exemplo, o certinho e esquecível Conduta de Risco.
Baseado em um musical da Broadway, o filme se passa em Londres do século 19 e conta a saga de um barbeiro (Johnny Depp) preso injustamente e que procura vingança. Enquanto não conclui a desforra, faz uma macabra parceria com Mrs. Lovett (Helena Bonham Carter) e sua loja de tortas.
Sweeney Todd não é redondinho e completo como o cinemão Desejo e Reparação e o cult Juno, outras duas películas indicadas ao Oscar, muito pelo contrário, certos elementos da trama quase derrubam o filme como o romance entre Anthony Hope (Jamie Campbell Bower) e Johanna (Jayne Wisener) e a obviedade da personagem mendiga. Mesmo assim, os pontos altos do musical superam as falhas. A canção onde Mrs. Lovett sonha com uma vida a dois com Sweeney Todd é hilária; a ponta de Sacha Baron Cohen interpretando um barbeiro italiano é marcante e impagável; o reencontro de Todd com suas navalhas também é emocionante. Aliás praticamente todas as canções possuem ótimas letras. Destaque negativo mais uma vez para a estreante Jayne Wisener, que ainda consegue a proeza de ser mais estranha que Christina Ricci.
Agora é esperar a releitura de Burton para Alice no País das Maravilhas, em 2010.
*Ainda não vi Sangue Negro e Onde os Fracos Não Têm Vez porque não foram lançados em Fortaleza.