Twentieth-Century Vole: ou como são algumas reuniões nos grandes estúdios de Hollywood

fevereiro 13th, 2009 § 0

Por muito tempo elucubrei sobre a razão de alguns filmes não terem sido aniquilados ainda na fase de pré-produção. Longas estrelados por indivíduos como Eddie Murphy, Lindsay Lohan, Rob Schneider e dirigidos/protagonizados pelos irmãos Wayans sempre originam em mim a mesma pergunta: como uma ideia tão estúpida como essa saiu do papel?

Descobri apenas hoje que, já em 1969, a trupe do Monty Python, com o brilhantismo que lhes era habitual, encontrou a resposta (infelizmente sem legenda):

Dirty Harry (1971)

dezembro 20th, 2008 § 0

I like Clint Eastwood because he has only two facial expressions: one with the hat, and one without it", by Sergio Leone

Sergio Leone certa vez explicou que gostava de trabalhar com Eastwood com a seguinte frase: “Eu gosto do Clint Eastwood porque ele possui apenas duas expressões faciais: uma com o chapéu, e outra sem ele.” Clint foi sem dúvida nenhuma a grande inspiração de uma leva de atores que despontaram na década de 90, tendo Keanu Reeves como expoente máximo. E o filme que fez de Eastwood uma estrela de primeiro escalão em Hollywood foi Dirty Harry (ou Perseguidor Implacável no Brasil ou ainda A Fúria da Razão em Portugal). A película dirigida por Don Siegel atualizou o gênero policial ao trazer elementos do western clássico e fez tanto sucesso que ganhou quatro seqüências.

Do you feel lucky, punk?

Confesso que só conhecia o longa de nome e que fiquei bastante assustado com resultado (principalmente se compararmos com The Beguiled, do mesmo ano, com o mesmo Clint e o mesmo Don). Harry Gallahan é um individualista que rege a sua vida através de uma ética pessoal muito peculiar e que freqüentemente vai de encontro com as normas da sociedade em que vive. Some-se a isso o fato de que Gallahan não possui passado, fraqueza ou profundidade psicológica (ou se possui o filme não aborda) e temos uma máquina de matar que trabalha para o Estado.

Muito falou-se de um viés fascista em Tropa de Elite quando do seu lançamento, mas convenhamos que perto de Dirty Harry o filme de José Padilha é no máximo conservador. Os negros do filme de Don Siegel ou são assaltantes ou marginais, o único policial latino da trama não agüenta o tranco e vira professor, os homossexuais são ridicularizados. Todavia, o mais chocante é a mensagem final.

Um super-homem que protege sua cidade amada

Ao jogar sua insígnia de policial fora e manter sua arma, Callahan reafirma sua descrente nas instituições, considera-se acima das leis e deixa subentendido que irá fazer justiça com as próprias mãos. Um autêntico cowboy nas ruas de São Francisco.

Stanley Kubrick Bloopers

setembro 13th, 2008 § 0

Homenagem a um dos cineastas mais geniais de todos os tempos.


Stanley Kubrick Bloopers from Dan Meth on Vimeo.

Para mim, o excerto de The Shining ganha fácil. E pra você?

Dica do Rená

Save Miguel

agosto 27th, 2008 § 0

Rob Schneider em Portugal? Sim, o ator de besteiróis como Gigolô por Acidente, Animal, Eu os Declaro marido e… Larry (a lista é interminável), é o mais novo garoto-propaganda da Corticeiria Amorim. A maior produtora de rolhas de cortiça do mundo encabeça uma campanha contra as famigeradas rolhas de plástico. Talvez por sua praticidade, eficiência, baixos custos e produção em alta escala, as rolhas de plástico são as mais utilizadas em países como EUA e Austrália. No filme a seguir Schneider defende as rolhas de cortiça por seu aspecto “verde” (são biodegradáveis e recicláveis) e romantismo. Melhor do que muito filme de sua carreira.

Veja também o trailer (que é ótimo) e o site da campanha.

Via Público

Hulk, Batman e a manipulação da realidade

julho 27th, 2008 § 0

Leonard, mocinho ou bandido?

Adoro assistir filmes que já vi. Perdi a conta de quantas vezes revi O Poderoso Chefão, Indiana Jones e a Última Cruzada, Tempos Modernos, Perfume de Mulher, De Volta para o Futuro, Laranja Mecânica, Notting Hill, entre outros. Cada nova visita uma nova descoberta, um detalhe que havia passado desapercebido na vez anterior. Amnésia, nesse aspecto, é um filme singular. Já mudei minha opinião sobre a índole do protagonista, Leonard, umas quatro vezes. Assim como na literatura, os bons filmes permitem que cada espectador faça uma leitura diferente da obra.

A Piada Mortal

Essa semana vi The Dark Knight. Mesmo com sua câmera carrosel, uma Rachel Dawes (assim como a anterior) sem sal e um Duas-Caras meia-boca, gostei muito do filme. Cenas como a que o Coringa conta como conseguiu suas cicatrizes; a que ele explode um hospital; ou quando faz seu discurso final já valem o ingresso. Sim, o filme vale pela personagem de Heath Ledger. O longa perde bastante em densidade e energia quando o Coringa não está em cena.

Lendo resenhas acerca do filme, vi uma do sempre pertinente Inácio Araújo. Segue o trecho que mais me interessou:

“Essa fabulação tem um fim político preciso, i. é: combater o mal absoluto tem um custo, que consiste em viver nas sombras. Esse é o preço pago por Batman, mas, se formos pensar bem, há um outro personagem atual que pode reivindicar tal papel, e atende por George W.”

E conclui:

“Dizem que este é o Batman de Frank Miller (e o Coringa também). Talvez seja isso mais que tudo. Aquele ‘Sin City‘ já era isso e não engoli de jeito nenhum. É um investimento no pior, na baixeza, na podridão.”

“Resumindo minha impressão, o novo Batman é chato, ruidoso e reacionário.”

Hulk, arma americana para controlar corações e mentes

Essa leitura política da película lembrou-me outra resenha que vi dias desses, de Fábio de Oliveira Ribeiro, publicada no Observatório da Imprensa, acerca do Incrível Hulk.

“No Brasil, Banner é perseguido pelos corredores da favela da Rocinha. Quando chega aos EUA, o personagem é obrigado a fugir através dos corredores de uma belíssima universidade. É evidente que os livros simbolizam a civilização. Os barracos, por sua vez, representam a barbárie. Assim, é impossível não fazer duas perguntas. No Brasil há favelas porque não existem livros? Nos EUA não existem favelados por causa das bibliotecas?”

Mais adiante:

“Banner, o norte-americano, não desejava o poder que adquiriu e passa o tempo todo tentando se livrar dele. Já o soldado de origem russa faz qualquer coisa para adquirir condições de confrontar Hulk. Quando consegue o que deseja, o monstro russo ataca indiscriminadamente as pessoas nas ruas de New York. Em razão disto, o bom moço aceita o sacrifício de libertar o Hulk para defender a população.”

Interessantes e válidas leituras. Contudo, em ambos os casos, fico com a sensação daqueles discursos esquerdistas onde é possível ver a “mão ossuda, peluda e fedorenta do imperialismo” em todos os cantos. Já do outro lado da linha do Equador tem colunista americano (que deve ser considerado pelo Araújo e pelo Ribeiro como “direitista com sentimento de culpa”) dizendo que essa temporada é “do verão da culpa branca”.

Não vejo o Batman como Bush, nem o Coringa como Bin Laden. Todavia, claro, é possível achar argumentos que validem essa teoria. Como qualquer outra. Entrando no jogo, se fosse para enviesar pela política norte-americana diria que o Batman (que trabalha nas trevas) seria a encarnação de Dick Cheney e Harvey Dent o Barack Obama (depositário de toda a confiança e esperança da população e que no fim…).

Será que o Departamento de Estado Americano interfere em todos os blockbusters? Será que nada é gratuito, tudo é político, possui uma mensagem cifrada e eu que estou sendo ingênuo demais? Será que se esses mesmos filmes fossem espanhóis, franceses ou mesmo ingleses, eles teriam por parte da crítica essa mesma leitura?

E você, que leitura fez de Hulk e Batman?

Rope, super-homens e Dostoiévski

julho 21st, 2008 § 0

O mestre do suspense

Domingo, dia morto por definição, nada melhor do que (re)ver um filme. Assisti Rope (Festim Diabólico, no Brasil, e A Corda, em Portugal), de Alfred Hitchcock. Considero esse longa um dos melhores do gênio do suspense. Uma daquelas fitas que sempre que vemos novamente algo novo nos salta aos olhos. A seguir algumas considerações.

Quanto à forma

Rope é um desbravador. Utilizando a técnica Technicolor, esse é o primeiro filme a cores de Hitchcock. Rodado em 1948, esse é o famoso longa em que o diretor tentou fazer apenas um longo plano-seqüência. Devido às limitações da época (as câmeras gravavam apenas cerca de 11 minutos por vez), a película conta com 10 raccords: 5 cortes e 5 fusões. Somos brindados então com excelentes planos, como o cena em que Brandon leva a corda para a cozinha; quando Phillip é confundido com David e quebra o copo; o tenso e desnorteador plano final; e, obviamente, a antológica cena em que Rupert faz a reconstituição do crime e a câmera subjetiva acompanha seu raciocínio.

Câmera esta que é a personagem mais importante da trama. Seguindo seu deslocamento, em certos momentos damos mais valor ao que está fora de campo do que o que está enquadrado. Poucas vezes na história do Cinema os espectadores foram tão condicionados e manipulados.

Quanto ao conteúdo

Apesar das suas inovações formais, o diferencial do filme está nas discussões filosóficas dos protagonistas. Brandon e Phillip acreditam serem pessoas sobre-humanas, situados acima da moral e das convenções sociais, além do bem e do mal, tal qual a tese nieztschiana do Super-homem. Esse conceito é desenvolvido de forma simples em Crime e Castigo, de Dostoiévski. Raskolnikóv, protagonista do romance, acredita que a raça humana é dividida em duas categorias: os homens ordinários e os extraordinários. Aqueles vivem na obediência e não possuem o direito de desrespeitar a lei. O segundo grupo teria o direito não oficial de burlar essas regras “no caso especial que assim exija a realização da sua idéia, a qual pode por vezes ser útil ao gênero humano” e conclui: “não somente todos os grandes homens, mas todos os que se elevam um pouco acima do nível comum, que são capazes de dizer alguma coisa de novo, devem por sua própria natureza, ser naturalmente criminosos”.

Os assassinos

Brandon e Phillip realizam o que julgam ser o crime perfeito, uma verdade obra de arte. Como tal, acreditam que ela precisa ser admirada, e fazem um jantar com familiares do morto e Rupert Cardell, um antigo professor. Rupert, interpretado pelo sempre ótimo James Stewart, é uma personagem ambígua. Destila irônia e nunca sabemos quando está falando sério. Dessa forma permite várias leituras de seu caráter. Encontrei duas interessantes. A primeira é de Peter J. Dellolio. O autor julga que a película foi fortemente influenciada pela Segunda Guerra Mundial. Brandon, homossexual (sim, a quê você acha que a frase Then his body went lipm… I knew it was over… I felt a sense of tremendous exhilariation se referia?), artista frustrados e fazendo uma leitura equivocada das idéias de Nieztsche, seria o link com Hitler e o nazismo. Rupert, repesentando o espectador, seria a democracia, a justiça. Um tribunal de Nuremberg de 1,91 m e olhos azuis.

Descontração nos sets de filmagens

João Bénard da Costa, em texto para a Cinemateca, por sua vez, defende que Rupert não apenas considera-se um homem extraordinário como realiza TRÊS crimes perfeitos: “matou David, por interposta pessoa e pelos frutos das suas teorias ( foi o autor moral e intelectual desse crime) e vai matar Phillip e Brandon entregando-os à polícia. E por nenhuma dessas mortes pode ser responsabilizado. Porque não foi o autor material da morte de David e porque está do lado da sociedade (e da justiça) nas mortes futuras de Phillip e Brandon” (lembremos que em determinado momento Rupert diz You’re gonna die, Brandon. Both of you).

Talvez essas leituras não sejam de todo contraditórias e excludentes, todavia, gosto muito mais da segunda. E você?

Sobre a péssima distribuição de filmes em Portugal

julho 14th, 2008 § 0

Qual será a razão da demora?

Os cinemas portugueses estão revelando-se uma decepção. Ou melhor, o cinemão, os blockbusters, os filmes-pipoca, que fique claro. Porque a programação da cinemateca e os ciclos de filmes-cabeça daqui são excelentes.

Quando cheguei em Lisboa, em meados Fevereiro, estreou Michael Clayton. Achei estranho, uma vez que o filme chegou no Brasil em DEZEMBRO, mas pensei que fosse um caso isolado. Ledo engano. No Country for Old Men e There Will Be Blood começaram a ser exibidos por cá apenas na véspera do Oscar. Até aí tudo bem, não tinha sido drasticamente afetado.

TDD

O problema é que, como 110% dos fãs do Batman, não vejo a hora de assistir The Dark Knight e ver a propalada “entrega total ao personagem” feita por Heath Ledger, no papel de Coringa. Fui atrás de comprar um ingresso antecipado, crente que o filme teria um estréia mundial (vide a data do pôster aí acima). Bem, o filme pode até ter uma première mundial, mas Portugal, definitivamente, não faz parte do pacote. Aqui o longa vai estrear somente no dia 24 de Julho. E agora, José? Como vou passar imune da avalanche de comentários que a película receberá entre o dia 18, quando estréia também em todo o Brasil, e o dia 24?

Outras vítimas da péssima distribuição que assola Portugal são WALL·E, que tem previsão de chegar em um longínquo 14 de Agosto, e Tropa de Elite, que, pasmem, aportou em salas lusas fim de semana passado.

É, acho que a solução será contentar-me mesmo com De Sica, Antonioni, Welles, Gordard e cia. Quando voltar para Fortaleza eu alugo os filmes que estarão sendo lançados aqui em DVD.

PS: Alguém sabe explicar o por quê dessa defasagem tão aguda?

Da arte européia de fumar

março 23rd, 2008 § 0

Paixão européia

Vários filmes, principalmente os noir, possuem no cigarro um elemento fundamental da trama. Filmes como Casablanca, O Falcão Maltês, Gilda e Uma Rua Chamada Pecado são bons exemplos do que o cigarro pode representar em cena. Apesar de ter essa imagem glamourizada no meu imaginário, quando via pessoas em Fortaleza fumando, dificilmente encontrava alguma característica que me lembrasse a sotifiscação, a elegância ou a sensualidade das personagens dos filmes hollywoodianos.

Em Lisboa é completamente diferente. A começar pelo número de fumantes. Em 2004, uma pesquisa apontou que um terço da população portuguesa fuma. É fácil comprovar esses dados ao andar pelas ruas daqui. Em todas as esquinas encontramos duas, três pessoas fumando antes de voltar ao trabalho. Mas, se entre os adultos a prática é recorrente, é entre os jovens, principalmente as moças, que o cigarro prepondera. Na Universidade Nova de Lisboa é difícil achar uma garota que não fume. E, com tantas pessoas fumando, não é complicado você encontrar alguém que realmente sabe fumar. Ou melhor, alguém que fume como nos filmes de Hollywood. Alguém onde o início do cigarro e final da mão é imperceptível tal a interação entre as partes. Alguém que segure o cigarro como se fosse uma extensão da sua mão. Alguém que fume saboreando cada tragada como se aquela fosse a última. Alguém que solte a fumaça como se estivesse exalando um perfume de sonhos. Alguém que sabe o que está fazendo e demonstra imenso prazer em fazê-lo. É, definitivamente as européias sabem fumar.

Foto do Flickr de Lips Vago

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