
Domingo, dia morto por definição, nada melhor do que (re)ver um filme. Assisti Rope (Festim Diabólico, no Brasil, e A Corda, em Portugal), de Alfred Hitchcock. Considero esse longa um dos melhores do gênio do suspense. Uma daquelas fitas que sempre que vemos novamente algo novo nos salta aos olhos. A seguir algumas considerações.
Quanto à forma
Rope é um desbravador. Utilizando a técnica Technicolor, esse é o primeiro filme a cores de Hitchcock. Rodado em 1948, esse é o famoso longa em que o diretor tentou fazer apenas um longo plano-seqüência. Devido às limitações da época (as câmeras gravavam apenas cerca de 11 minutos por vez), a película conta com 10 raccords: 5 cortes e 5 fusões. Somos brindados então com excelentes planos, como o cena em que Brandon leva a corda para a cozinha; quando Phillip é confundido com David e quebra o copo; o tenso e desnorteador plano final; e, obviamente, a antológica cena em que Rupert faz a reconstituição do crime e a câmera subjetiva acompanha seu raciocínio.
Câmera esta que é a personagem mais importante da trama. Seguindo seu deslocamento, em certos momentos damos mais valor ao que está fora de campo do que o que está enquadrado. Poucas vezes na história do Cinema os espectadores foram tão condicionados e manipulados.
Quanto ao conteúdo
Apesar das suas inovações formais, o diferencial do filme está nas discussões filosóficas dos protagonistas. Brandon e Phillip acreditam serem pessoas sobre-humanas, situados acima da moral e das convenções sociais, além do bem e do mal, tal qual a tese nieztschiana do Super-homem. Esse conceito é desenvolvido de forma simples em Crime e Castigo, de Dostoiévski. Raskolnikóv, protagonista do romance, acredita que a raça humana é dividida em duas categorias: os homens ordinários e os extraordinários. Aqueles vivem na obediência e não possuem o direito de desrespeitar a lei. O segundo grupo teria o direito não oficial de burlar essas regras “no caso especial que assim exija a realização da sua idéia, a qual pode por vezes ser útil ao gênero humano” e conclui: “não somente todos os grandes homens, mas todos os que se elevam um pouco acima do nível comum, que são capazes de dizer alguma coisa de novo, devem por sua própria natureza, ser naturalmente criminosos”.

Brandon e Phillip realizam o que julgam ser o crime perfeito, uma verdade obra de arte. Como tal, acreditam que ela precisa ser admirada, e fazem um jantar com familiares do morto e Rupert Cardell, um antigo professor. Rupert, interpretado pelo sempre ótimo James Stewart, é uma personagem ambígua. Destila irônia e nunca sabemos quando está falando sério. Dessa forma permite várias leituras de seu caráter. Encontrei duas interessantes. A primeira é de Peter J. Dellolio. O autor julga que a película foi fortemente influenciada pela Segunda Guerra Mundial. Brandon, homossexual (sim, a quê você acha que a frase Then his body went lipm… I knew it was over… I felt a sense of tremendous exhilariation se referia?), artista frustrados e fazendo uma leitura equivocada das idéias de Nieztsche, seria o link com Hitler e o nazismo. Rupert, repesentando o espectador, seria a democracia, a justiça. Um tribunal de Nuremberg de 1,91 m e olhos azuis.

João Bénard da Costa, em texto para a Cinemateca, por sua vez, defende que Rupert não apenas considera-se um homem extraordinário como realiza TRÊS crimes perfeitos: “matou David, por interposta pessoa e pelos frutos das suas teorias ( foi o autor moral e intelectual desse crime) e vai matar Phillip e Brandon entregando-os à polícia. E por nenhuma dessas mortes pode ser responsabilizado. Porque não foi o autor material da morte de David e porque está do lado da sociedade (e da justiça) nas mortes futuras de Phillip e Brandon” (lembremos que em determinado momento Rupert diz You’re gonna die, Brandon. Both of you).
Talvez essas leituras não sejam de todo contraditórias e excludentes, todavia, gosto muito mais da segunda. E você?




