Rope, super-homens e Dostoiévski

julho 21st, 2008 § 0

O mestre do suspense

Domingo, dia morto por definição, nada melhor do que (re)ver um filme. Assisti Rope (Festim Diabólico, no Brasil, e A Corda, em Portugal), de Alfred Hitchcock. Considero esse longa um dos melhores do gênio do suspense. Uma daquelas fitas que sempre que vemos novamente algo novo nos salta aos olhos. A seguir algumas considerações.

Quanto à forma

Rope é um desbravador. Utilizando a técnica Technicolor, esse é o primeiro filme a cores de Hitchcock. Rodado em 1948, esse é o famoso longa em que o diretor tentou fazer apenas um longo plano-seqüência. Devido às limitações da época (as câmeras gravavam apenas cerca de 11 minutos por vez), a película conta com 10 raccords: 5 cortes e 5 fusões. Somos brindados então com excelentes planos, como o cena em que Brandon leva a corda para a cozinha; quando Phillip é confundido com David e quebra o copo; o tenso e desnorteador plano final; e, obviamente, a antológica cena em que Rupert faz a reconstituição do crime e a câmera subjetiva acompanha seu raciocínio.

Câmera esta que é a personagem mais importante da trama. Seguindo seu deslocamento, em certos momentos damos mais valor ao que está fora de campo do que o que está enquadrado. Poucas vezes na história do Cinema os espectadores foram tão condicionados e manipulados.

Quanto ao conteúdo

Apesar das suas inovações formais, o diferencial do filme está nas discussões filosóficas dos protagonistas. Brandon e Phillip acreditam serem pessoas sobre-humanas, situados acima da moral e das convenções sociais, além do bem e do mal, tal qual a tese nieztschiana do Super-homem. Esse conceito é desenvolvido de forma simples em Crime e Castigo, de Dostoiévski. Raskolnikóv, protagonista do romance, acredita que a raça humana é dividida em duas categorias: os homens ordinários e os extraordinários. Aqueles vivem na obediência e não possuem o direito de desrespeitar a lei. O segundo grupo teria o direito não oficial de burlar essas regras “no caso especial que assim exija a realização da sua idéia, a qual pode por vezes ser útil ao gênero humano” e conclui: “não somente todos os grandes homens, mas todos os que se elevam um pouco acima do nível comum, que são capazes de dizer alguma coisa de novo, devem por sua própria natureza, ser naturalmente criminosos”.

Os assassinos

Brandon e Phillip realizam o que julgam ser o crime perfeito, uma verdade obra de arte. Como tal, acreditam que ela precisa ser admirada, e fazem um jantar com familiares do morto e Rupert Cardell, um antigo professor. Rupert, interpretado pelo sempre ótimo James Stewart, é uma personagem ambígua. Destila irônia e nunca sabemos quando está falando sério. Dessa forma permite várias leituras de seu caráter. Encontrei duas interessantes. A primeira é de Peter J. Dellolio. O autor julga que a película foi fortemente influenciada pela Segunda Guerra Mundial. Brandon, homossexual (sim, a quê você acha que a frase Then his body went lipm… I knew it was over… I felt a sense of tremendous exhilariation se referia?), artista frustrados e fazendo uma leitura equivocada das idéias de Nieztsche, seria o link com Hitler e o nazismo. Rupert, repesentando o espectador, seria a democracia, a justiça. Um tribunal de Nuremberg de 1,91 m e olhos azuis.

Descontração nos sets de filmagens

João Bénard da Costa, em texto para a Cinemateca, por sua vez, defende que Rupert não apenas considera-se um homem extraordinário como realiza TRÊS crimes perfeitos: “matou David, por interposta pessoa e pelos frutos das suas teorias ( foi o autor moral e intelectual desse crime) e vai matar Phillip e Brandon entregando-os à polícia. E por nenhuma dessas mortes pode ser responsabilizado. Porque não foi o autor material da morte de David e porque está do lado da sociedade (e da justiça) nas mortes futuras de Phillip e Brandon” (lembremos que em determinado momento Rupert diz You’re gonna die, Brandon. Both of you).

Talvez essas leituras não sejam de todo contraditórias e excludentes, todavia, gosto muito mais da segunda. E você?

Sobre a péssima distribuição de filmes em Portugal

julho 14th, 2008 § 0

Qual será a razão da demora?

Os cinemas portugueses estão revelando-se uma decepção. Ou melhor, o cinemão, os blockbusters, os filmes-pipoca, que fique claro. Porque a programação da cinemateca e os ciclos de filmes-cabeça daqui são excelentes.

Quando cheguei em Lisboa, em meados Fevereiro, estreou Michael Clayton. Achei estranho, uma vez que o filme chegou no Brasil em DEZEMBRO, mas pensei que fosse um caso isolado. Ledo engano. No Country for Old Men e There Will Be Blood começaram a ser exibidos por cá apenas na véspera do Oscar. Até aí tudo bem, não tinha sido drasticamente afetado.

TDD

O problema é que, como 110% dos fãs do Batman, não vejo a hora de assistir The Dark Knight e ver a propalada “entrega total ao personagem” feita por Heath Ledger, no papel de Coringa. Fui atrás de comprar um ingresso antecipado, crente que o filme teria um estréia mundial (vide a data do pôster aí acima). Bem, o filme pode até ter uma première mundial, mas Portugal, definitivamente, não faz parte do pacote. Aqui o longa vai estrear somente no dia 24 de Julho. E agora, José? Como vou passar imune da avalanche de comentários que a película receberá entre o dia 18, quando estréia também em todo o Brasil, e o dia 24?

Outras vítimas da péssima distribuição que assola Portugal são WALL·E, que tem previsão de chegar em um longínquo 14 de Agosto, e Tropa de Elite, que, pasmem, aportou em salas lusas fim de semana passado.

É, acho que a solução será contentar-me mesmo com De Sica, Antonioni, Welles, Gordard e cia. Quando voltar para Fortaleza eu alugo os filmes que estarão sendo lançados aqui em DVD.

PS: Alguém sabe explicar o por quê dessa defasagem tão aguda?

Passeio pelos cinemas de Lisboa

março 9th, 2008 § 0

Alvaláxia

Minha primeira preocupação ao chegar ao alojamento foi saber qual era a sala de cinema mais perto. Não sei se vocês sabem mas estou morando ao lado do estádio do Sporting, o Alvaláxia. Lá existem 15 salas de cinema. Disseram-me que a inteira era € 5,20. Achei barato e fui conferir. O que não me contaram é que aqui não existe meia. Há apenas um desconto para estudantes. Acabei pagando € 4,20. As salas não são nada demais, as do Iguatemi não ficam devendo em nada as do Alvaláxia. Exceção feita à sala 11, que é tão ruim que não dá nem para comparar. Segundo o Rená, um dos milhares brasileiros que moram no alojamento, e que foi assistir Sweeney Tood, a sala é minúscula. “Aquilo não é uma tela de cinema. É brincadeira. É a menor sala que eu já vi”.

Um filme por semana é muito pouco

Como não tenho € 4,20 para gastar com freqüência tive que procurar opções mais compatíveis com a minha condição de estudante-brasileiro-que-não-tem-onde-cair-morto. Descobrimos que existia um cineclube na Universidade Nova de Lisboa. As sessões ocorrem todas as terças-feiras, às 21h30. Pensei que fosse gratuito, mas tive que pagar € 5,00 por uma carteirinha de sócio. A vantagem é que com ela posso assistir a todos os filmes de 2008 de graça. O longa de terça passada foi Stranger than Paradise, de Jim Jarmusch. Um filme despretencioso e delicioso. Recomendo!

Viva a Cinemateca!

Gostei bastante do cineclube, mas cinema uma vez por semana é pouco demais. A busca continuou e achamos a Cinemateca Portuguesa. São cerca de 5 filmes por dia e, o mais importante, por € 2 para estudante. Fiquei apaixonado. Já fui duas vezes. Assisti o noir Kiss Me Deadly, de Robert Aldrich, e o confuso Level Five, de Chris Marker, que foi precedido pelo excelente documentário Nuit et Brouillard, de Alain Resnais (retornarei a essas películas em outra ocasião). O documentário de Renais, que é em francês, foi exibido com legendas em inglês e, o mais impressionante, em plena 19h de uma quinta-feira a sala tinha, por baixo, 75 pessoas. Acho que encontrei minha segunda casa. Pelo menos até encontrar uma forma de ir para o cinema de graça.

Where Am I?

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