La apertura

maio 19th, 2009 § 2

La apertura

Durante o Ensino Médio conheci Os Contos da Montanha, do português Miguel Torga. Não nego que li única e exclusivamente porque meus proféticos professores de língua portuguesa tinham como favas contadas a presença dessa obra no vestibular daquele ano. Não “caiu”, mas este foi o melhor livro que passou pelas minhas mãos naquele ano. Enquanto o lia, não saia da minha cabeça aquele famoso aforismo de Tolstói, “Se queres ser universal, começa por pintar a tua aldeia”.

Desde então nutro um particular apreço por obras que, reportando uma realidade específica, com suas singularidades intrínsecas, conseguem atingir as mais díspares e longínquas audiências.

É o caso do curta La apertura. Narrando um dia na vida de dois amigos dançarinos de tango que almejam a fama, a história filmada em um bairro pobre de Buenos Aires, bem poderia ter como cenário alguma cidade do interior do Ceará, apenas substituindo, evidentemente, o tango pelo forró.

The Auteurs, cinema em casa

maio 6th, 2009 § 0

The Auteurs

Rená Tardin, sempre ele, apresentou-me The Auteurs. À primeira vista, é de encher os olhos. Reúne milhares de clássicos do cinema mundial, além de disponibilizar lançamentos que acabaram de participar dos festivais mais badalados do mundo. Nada de torrents, vemos tudo online, via streaming. Aqui temos uma demostração da qualidade dos vídeos.

O site também é uma rede social. Você cria sua filmoteca, avalia e resenha filmes, fica sabendo os longas que seus amigos assistiram e ainda pode participar de fóruns. O acesso a boa parte do acervo – principalmente aos clássicos – é gratuito, pelo menos para os EUA.

No Brasil, até momento, apenas 140 títulos estão disponíveis, custando entre 1 e 3 dólares pela visualização. O problema nem é o preço em si, mas a falta de fitas interessantes.

Ainda assim, é uma iniciativa que merece ser acompanhada de perto.

Mera Coincidência (Wag the Dog, 1997)

abril 22nd, 2009 § 6

Wag the Dog

Nesse feriado revi Mera Coincidência (Manobras na Casa Branca, em Portugal) para um trabalho da faculdade. Conhecido como o filme que antecipou o caso Monica Lewinsky, o longa de Barry Levinson é um pouco mais do que apenas um caso de “vida que imita a arte”. Detentor do título de um dos três filmes mais exibidos nos cursos de Jornalismo (juntamente com Cidadão Kane e A Montanha dos Sete Abutres), Mera Coincidência pode não empolgar os espectadores em geral, mesmo com seu ótimo roteiro e a boa interpretação de Dustin Hoffman, mas é um prato cheio para quem trabalha com comunicação.

O filme explora com sabedoria um ponto exaustivamente abordado pelos teóricos da comunicação: a ficcionalização dos conteúdos informativos. “Os jornais querem algo inesperado? Inventamos uma guerra com a Albânia. Querem imagens de encher os olhos? Criamos uma fuga com efeitos especiais. Querem um herói de guerra? Nós produzimos”, nos dizer o produtor de Hollywood interpretado por Hoffman.

Nesse sentido, o factóide mais bem produzido no Brasil talvez ainda seja o “Caçador de Marajás”.

Por que mais show e entretenimento e menos informação e interpretação? As razões são variadas, mas gostaria de ater-me em uma: o afã do furo. Sérgio Augusto já afirmou que, quando a Folha de S. Paulo elevou a Ilustrada ao patamar dos cadernos de Política e Economia, no fim da década de 1980, o “frenesi do furo” pasteurizou os cadernos de cultura dos grandes jornais.

Conferir à cultura o mesmo status jornalístico da política e da economia foi, sem dúvida, um avanço, mas algumas deformações ocorreram, ao longo do processo, nenhuma tão lamentável quanto o desatinado culto ao furo, à primeira mão, à exclusividade, que na maioria dos segundos cadernos vicejou. Os editores de cultura e amenidades não se preocupam mais em dar bem um assunto em seus cadernos; sua única e obsessiva preocupação é dar antes o que quer que seja, é “furar o concorrente”, como se um novo livro de Rubem Fonseca ou um novo disco de Caetano fosse uma novidade tão importante para a vida da população quanto a notícia de mais um plano econômico do governo ou a descoberta de uma falcatrua no sistema bancário.

A atual culto ao denuncismo está fazendo o mesmo com a Política. Os jornalistas, com medo de ficarem atrás da concorrência, noticiam primeiro para verificar depois, como bem observa Ricardo Kotscho.

Hoje, é fácil. As denúncias muitas vezes chegam prontas para os jornalistas – em forma de dossiês, fitas, listas, como um serviço de delivery.

Em geral, primeiro denunciam para só depois checar a veracidade do que foi publicado – mais ou menos como o policial que primeiro atira para depois pedir documentos.

Esperavasse que com o imediatismo da Internet, os furos (e barrigadas) fossem noticiados primeiro no online, enquanto que as versões impressas teriam maior acuro com as reportagens: verificação intensa dos dados e mais análise e interpretação. Até o momento, não é bem isso que estamos vendo.

Trailer de Lula, o filho do Brasil

abril 20th, 2009 § 7

Considerado “o cara” por Obama, fiador do FMI, personagem de South Park e futuro blogueiro, o presidente Lula estará nas telonas em Setembro.

Lula, o filho do Brasil, é mais um produto da clã Barreto, que nos últimos anos não tem acertado muito a mão. Orçado em R$ 12 milhões, torçamos para o filme seja pelo menos melhor do que trailer.

Via

Gobstopper: ou quando Willy Wonka encontra Jigsaw

março 24th, 2009 § 0

Quatro jovens amigos saem em busca de aventura quando encontram um cartão dourado dentro de uma barra de chocolate. Eles queriam apenas se divertir e acabaram cometendo o maior erro de suas vidas. Christopher Lloyd estrela o filme mais horrendo e aguardo de 2009, Gobstopper.

Gobstopper Trailer from Gobstopper Movie

Visto no excelente CineBlog

Quem Quer Ser Milionário? (Slumdog Millionaire, 2008)

março 19th, 2009 § 0

Com muito atraso assisti o grande papador de prêmios em 2008. Melhor seria ter passado em branco. O Oscar não pisava na bola assim desde… 2005, quando galardoou o medonho Crash – No Limite.

Ana Maria Bahiana e Chico Fireman justificaram o oba-oba em torno da fita com o seu pretenso ar otimista, sendo “produto do seu tempo”, um “filme que o mundo precisa agora.” Não compartilho com essa linha de raciocínio.

Não vejo qualidades que possam ser enaltecidas, muito pelo contrário. Dos defeitos que saltam aos olhos, as falhas no roteiro, o didatismo, as personagens maniqueístas e superficiais, os diálogos constrangedores e a escatologia, nenhum aproxima-se da total falta de compromisso com que Danny Boyle filma a Índia. Em momento algum o diretor procurou entender o país retratado, a questão do Outro inexiste no longa. E isso encerra qualquer pretensão do longa de ser levado a sério.

Luís Miguel Oliveira escreveu um texto para o jornal português Público onde sintetiza com elegância e discernimento a visão de mundo que separa os grandes diretores de pessoas como Boyle.

Dizer que Danny Boyle devia ter ido filmar os bairros de lata do seu próprio país em vez de ir filmar os da Índia, como têm argumentado algumas reacções indianas pouco agradadas com “Quem quer ser Bilionário?”, que hoje estreia nas salas portuguesas, não nos leva longe – até porque filmar bairros de lata é em geral actividade pouco apreciada, como em Portugal bem se vê pela indignação de tanta luminária opinativa aos filmes em que Pedro Costa foi filmar os bairros de lata do seu próprio país. É importante que se perceba que o que nos desgosta em “Quem quer ser Bilionário?” não é o bairro de lata, nem é a miséria, mas antes a pobreza do olhar com que Danny Boyle os filma. Num certo sentido, os indianos zangados têm razão: este filme podia ter sido feito em qualquer lado, exactamente da mesma maneira.

“Para além de macaquear uns quantos elementos (simples “efeitos”, na verdade) que com muito boa vontade podem ser entendidos como referência ao cinema de Bollywood (que agora caiu no goto como se fosse uma vaca sagrada: mas também há a Bollywood intragável no seu “kitsch” irredimiavelmente publicitário), para além disso, perguntávamos, que vê Danny Boyle na Índia que não visse noutro lado qualquer? Até a televisão é a mesma, é a televisão dos “formatos” e o “Quem quer Ser Milionário?”… Danny Boyle é daqueles cineastas que fazem preceder a discussão sobre o seu talento (nulo, diga-se de passagem) de uma discussão sobre a sua “visão do mundo”. Dá a impressão que nunca saiu de “Trainspotting“, que é assim que vê o mundo, apenas um grande “Trainspotting”, esteja-se onde se estiver. Se há alguma “proeza” em “Quem quer ser Bilionário?”, ela consiste apenas nisto: num espantoso trabalho de “torção” para fazer caber a Índia dentro da sua estreita visão do mundo. Boyle não foi à Índia, trouxe a Índia para dentro de “Trainspotting”, para dentro dos seus estereótipos sociais (ricos e pobres) e figurativos (os efeitozinhos “clipescos” e publicitários). É impressionante a insensibilidade do seu olhar, a falta de disponibilidade – é um filme cego, vê o que as palas que tem nos olhos lhe permitem ver.

“No contexto eufórico que aclama “Quem quer ser Bilionário?” como a oitava maravilha do mundo valerá a pena lembrar que outros cineastas ocidentais (mas enfim, não resistimos: verdadeiros cineastas) viveram as suas “viagens à Índia” com o tipo de disponibilidade que falta a Boyle, e com a modéstia (e a inteligência, e a sensibilidade) para construírem os seus filmes no balanço entre as certezas que traziam da Europa e aquilo que a Índia lhes revelou? Que “O Rio Sagrado” de Renoir (para mais um filme com uma perspectiva radicalmente ocidentalizada: são as memórias de um “casulo” na Índia colonial britânica) ou a “Índia” de Roberto Rossellini são filmes totalmente embebidos por um “mistério indiano”, um mistério perscrutado numa relação com a geografia (algo completamente ausente do filme de Boyle), com a religião, com a cultura, com a sociedade, com o povo – e que essa Índia, que não exclui a “miséria” (ver por exemplo o “Calcutá” de Louis Malle), é olhada com uma nobreza cinematográfica nos antípodas da vulgaridade de Boyle? Se, por alguma lei obscura (a lei do “só quer entreter”), se invalidar a aproximação do filme de Boyle aos de Renoir e Rossellini, temos à mão um cineasta americano que está bem longe de gozar de tão canónico estatuto. Wes Anderson, cujo último filme, “The Darjeeling Limited“, também se passava na Índia. Anderson filmava-a com uma ideia estética – as cores, os aromas, a paisagem, os templos – e fazia a ética decorrer dela. Boyle só tem uma ideia ética (uma imagem esterotipada do “terceiro mundo”) – naturalmente infere dela toda a (pobre) estética de “Quem quer ser Bilionário?”. Em “Darjeeling”, perto do fim, a personagem de Adrian Brody, depois de uma viagem em que nunca pareceu especialmente interessado no que o rodeava, dizia “nunca me vou esquecer do cheiro deste país” e falava do perfume a especiarias. Danny Boyle não conseguiu sentir mais do que o cheiro a merda. Cada um tem o nariz que tem.“

O Passageiro Obscuro

fevereiro 13th, 2009 § 0

Em Dezembro citei o curta De Volta ao Quarto 666, que faz parte da série Ensaios Visuais, iniciativa do Fronteiras do Pensamento. Hoje recebi um release da produtora V2 Cinema divulgando o filme O Passageiro Obscuro, que encerra a série (que conta ao todo com quatro episódios).

A partir de uma entrevista com o homem-do-tempo cineasta David Lynch, Davi de Oliveira Pinheiro cria um filme de livre associação, onde um detetive procura solucionar um assassinato lendo a mente da vítima.


O Passageiro Obscuro from Think Tank on Vimeo.

Lynch fazendo escola.

Twentieth-Century Vole: ou como são algumas reuniões nos grandes estúdios de Hollywood

fevereiro 13th, 2009 § 0

Por muito tempo elucubrei sobre a razão de alguns filmes não terem sido aniquilados ainda na fase de pré-produção. Longas estrelados por indivíduos como Eddie Murphy, Lindsay Lohan, Rob Schneider e dirigidos/protagonizados pelos irmãos Wayans sempre originam em mim a mesma pergunta: como uma ideia tão estúpida como essa saiu do papel?

Descobri apenas hoje que, já em 1969, a trupe do Monty Python, com o brilhantismo que lhes era habitual, encontrou a resposta (infelizmente sem legenda):

Esconde-Esconde

fevereiro 6th, 2009 § 0

Esconde-Esconde

Ilha das Flores é um dos curtas mais aclamados e midiáticos do Brasil. Todavia, lembro como era difícil conseguir vê-lo mesmo no fim da década passada. Apenas alguns raros professores cinéfilos possuíam uma esquálida versão em VHS.

Atualmente, com o advento da Internet e, principalmente, iniciativas como a da Petrobras é possível ter acesso a uma grande quantidade de curtas-metragens, famosos ou não.

Ainda assim, creio que o alcance é limitado. Pergunto-me por qual razão sites como o YouTube, Vimeo, Dailymotion, etc., são tão pouco utilizados pelos novos diretores brasileiros, uma vez que a usabilidade é bem superior ao do Porta Curtas, por exemplo.

Sei que muitos festivais aceitam apenas cópias inéditas dos filmes, mas isso não justificaria o número tão reduzido de curtas na web, no máximo atrasaria sua veiculação. Não acredito em falta de interesse, visto que os realizadores querem mais é que as pessoas vejam e comentem os seus trabalhos. Nem em desconhecimento da ferramenta, uma vez que essa nova geração praticamente nasceu junto com a Internet. Enfim, provavelmente o motivo é bem simples e eu é que o ignoro.

Esse preâmbulo todo foi para dizer que a partir de hoje divulgarei aqui curtas-metragens recentes que chamaram a minha atenção. Inicio a série com Esconde-Esconde, de Álvaro Furloni.

Leia uma entrevista com o diretor.
Veja o making-off da película.
Veja a lista de premiações do filme.
Conheça o Projeto Sal Grosso.

Os melhores títulos de filmes estrangeiros para o português de Portugal – Parte IV

fevereiro 5th, 2009 § 0

Nos últimos dias listei mais de cem filmes com traduções esdrúxulas para o português de Portugal. Fiz essa compilação não para tirar onda com nossos irmãos lusos (ok, essa também foi uma das razões), mas, principalmente, como terapia para minha ojeriza aos nomes que as fitas ganham no Brasil (aqui e aqui você encontra bons exemplos do que estou falando).

No Brasil, "Psicose"

Dois dos títulos mais zoados pelos brasileiros em Portugal são O Charreteiro Infernal (Ben-Hur, 1959) e O Filho (ou O Homem em outras versões) Que Era Sua Mãe (Psycho, 1960). O problema é que conversei com vários portugueses, fui em algumas locadoras e, obviamente, pesquisei na Internet e não achei nada, absolutamente NADA de concreto que provasse que esses filmes possuam realmente esse nome aqui em Portugal.

"No Brasil, "O Poderoso Chefão"

Aparentemente a vontade de frescar com o pessoal da terrinha é tanta que esses títulos surgiram por geração espontânea, transformando-se em mitos (se estiver enganado, favor enviar uma imagem ou um site que registre esses filmes com os respectivos nomes).

Por outro lado, a nossa tradução de The Godfather (O Poderoso Chefão) é sempre motivo de chacota pelos portugueses.

Brando sem Segredos

A arte traduzir de forma digamos… excêntrica não é uma exclusividade da Sétima Arte (o que seria uma lástima). Muitos seriados também receberam nomes diferentes, vide o exemplo de Pushing Daisies (aqui, Bem Me Quer Mal Me Quer) e The West Wing (Os Homens do Presidente).

Extrapolando o campo do audiovisual, podemos encontrar muita perspicácia na tradução do livro Brando Unzipped, de Darwin Porter: Brando Mas Pouco (pegou o trocadilho, hem? hem?!).

Todavia, encerro esta série exatamente com o filme que a motivou, o melhor título de todos os tempos (ou desde de sempre, como dizem por cá), uma verdadeira obra de arte: Uma Família à Beira de um Ataque de Nervos (Little Miss Sunshine, 2006).

No Brasil, "Pequena Miss Sunshine"

Com certeza a mais portentosa homenagem que Almodóvar já recebeu.

Where Am I?

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