O Rená, que divide o apartamento comigo e possui um blog, mandou-me hoje um texto pedindo para que eu o publicasse aqui. Deduzi que deveria ser muito ruim para que ele deixasse de publicar no seu próprio blog. “O maior cineasta vivo de Itaperuna” explicou então que, segundo o Analytics, ninguém visita o Radial Oeste há mais de um mês e, choramingando falou até em exclusão digital. Solidarizado com a sua situação (e subornado com uma garrafa de vinho do Porto), publico aqui sua crônica.
O bom Ladrão
Por Rená Tardin
Um conto, é disso que chamo essas poucas palavras. Nem quero contar segredos de além, conto mesmo, neste conto o que se passa por ora aqui. Quem vos escreve é o ladrão. Para que sua identidade não venha ao mar de sentenças ainda não aplicadas. E para que isso seja algo realmente ficcional. Estamos a falar de um conto.
O fato é que ele roubava. Ou seria eu mesmo, já que sou o ladrão? Nunca fui entendido das gramáticas, mas trocar o pronome é arte das mais importantes.
Começou na sua juventude a desejar isso. Era tolhido pelos bons costumes visto que morava em uma vila no interior. Mas de certo que desejava. Atravessou continente, libertou-se de amarras leves e agora exercita diariamente o ofício. Era chegado à letras e roubou também o título do conto.
O bom ladrão é um romance de Fernando Sabino que nunca chegou a ler. Achava, ainda nesse tempo, que tinha que ler o livro desde o princípio, passando pelas partes medianas e seguindo assim até o país das maravilhas dos grandes letrados. Nunca passou da introdução.
Roubou – o título – na cara dura e o livro que era romance veio a virar conto. Cabe ao leitor vasculhar por aí, que deve encontrar outro conto, já que não se pode confiar em ladrões de cunho internacional.
Roubava isqueiros, fumava pouco e isso era algo que ele mesmo não entendia muito bem. Mas era articulado com as cores. Nacionalidades. Isqueiros internacionais. Não que guardasse ou coisa do tipo. Tinha certa tendência a perder o fruto do roubo. Isso mostra que nem o título do conto sabe muito bem roubar, não é tão bom em atributos tão nobres.
Roubava porque era sua única chance de encontrar os galãs de Hollywood da década de 30 e seus filmes negros. Roubava porque queria viver aqueles bandidos com suas raparigas de perucas baratas. Era tudo na vida uma tendência ao filme Noir. Dinheiro, assassinato e sexo barato.
Roubava isqueiros coloridos. Não era das amizades ricas, em que encontraria um exemplar prateado, como nos filmes que tanto sonhava. Roubava colorido a sonhar com uma vida em preto e branco. Sonhava com a amada e suas cigarrilhas. Nada disso tinha. Já disse que não era dotado de riquezas. Roubava. Isqueiros baratos-coloridos, justificava com filmes modernos de um cineasta que não gostava. Mas justificava. Há quem diga que ele proferia a torto e em direto que só o roubo é justificável. Roubava cada dia mais.
Certo dia em festa de alto escalão, onde seus editores e futuros artistas do continente velho, todos eles a repetir coisas velhas de fumar, beber e falar da vida do próximo, ou apenas do cu da mulher do próximo, ele se viu tentado ao grande feito de sua vida. Nunca tinha visto com tamanha artimanha das facilidades um isqueiro barato-azul, por mesa de mesma cor e acompanhado da devida caixa de cigarros de duas letras de mesma cor – para que tudo rime e nada seja das grandes mentiras. Pensou em roubar. Conteve-se. Desejava. Paralisava. Cantava. Distraia os amigos. Roubaria.
- Preciso de um isqueiro – gritava o editor.
Ao pé do ouvido de seu fiel interlocutor para assuntos literários, o bom ladrão disse: tem um ali.
- E de quem é?
- Não sei, não sei mesmo.
- Parou de roubar?
Na negativa triste da cabeça, fez com que o editor prolongasse o assunto, mesmo com a pressa de acender as velas para o cumprir de anos de um dos artistas de tão nobre salão.
Tudo parou, claro que só os dois pararam por tanto tempo em um pormenor desses. O resto bailava, e eram ondas de danças que faziam gestos ao pobre do isqueiro solitário.
Antes de viajar para Madrid procurei pela vastidão da Internet dicas de albergues baratos, sugestões de roteiros para conhecer o maior números de locais interessantes no menor tempo possível, tabela com os preços dos principais museus, etc. O resultado foi frustante. Até encontrei algumas infomações úteis, mas foi preciso visitar dezenas de sites antes de cruzar com elas.
Por isso, mesmo ciente da insuficiência e superficialidade do que segue, pretendo agrupar algumas
informações necessárias para uma viagem rápida e barata para Madrid.
AVISO: Este guia é destinado, sobretudo, a estudantes latino-americanos residentes na Europa e com sérias restrições orçamentárias.
Passagens
Para além das gigantes EasyJet e Ryanair, onde é sempre possível fazer as conexões mais esdrúxulas para pagar menos, recomendo outra companhia low cost, a espanhola Vueling.
Caso as passagens de avião estejam caras (o que ocorre com freqüência nos meses de Julho-Agosto e recesso de Natal) outra alternativa são os ônibus (pelo menos para quem está morando em Portugal). Fui para Madrid pela InterNorte, mas o buzão que eu peguei era terrível. O centro acadêmico de qualquer universidade meia-boca brasileira consegue alugar algo melhor que aquilo. Por isso aconselho a Rede Expresso, que cobra quase a mesma coisa (Lisboa-Madrid gira em torno de 35-45 euros) e possui mais qualidade.
LEMBRETE: Caso viaje de avião, lembre que despachar malas muitas vezes custa mais caro do que a própria passagem, por isso procure levar apenas uma bagagem de mão (uma mochila com máximo de 10kg e com dimensões de 55cm x 40cm x 20cm).
LEMBRETE 2: Não esqueça que o limite máximo tolerado de xampu, desodorante, perfume, etc, são de apenas 100 ml por frasco no total de 5 frascos.
Hospedagem
Madrid possui três ótimas opções de albergues, o Cat’s Hostel, La Posada de Huertas e Mad Hostel. As reservas podem ser feitas nos respectivos sites ou no Back Packer Spain, que congrega também albergues de Barcelona, Valência e Sevilha.
Fiquei no Cat’s. Lá há opções de quartos simples até quartos mistos com cartoze pessoas. O local é bacana. Limpo e organizado, há wi-fi, além de quatro computadores (sempre ocupados), um barzinho e o café-da-manhã é de graça. E esse o grande ponto negativo do local: é pouco e não permite repetir o desjejum (previlégio que, segundo o Lucas Sampaio, é concedido pelo Huertas). A diária mais barata no Cat’s custa € 19,90 no quarto misto com cartoze camas.
LEMBRETE: O Cat’s exige uma caução de dez euros para caso você não saia até às onze horas do dia que termina a sua diária.
Comecemos por aquilo que talvez tome mais tempo na velha Madrid, a visita ao Palácio Real. Construido a pedido de Felipe V, no século XVIII, foi apenas com Carlos III e Carlos IV que o palacete ganhou a magnitude que persiste até hoje. São mais de uma dezena de ambientes e salões suntuosos, eloqüentes e incrivelmente belos.
O bilhete que permite visitar todas as salas custa dez euros. € 12,00 com visita guiada. Estudantes pagam 3,50. Nas quarta-feiras cidadãos da União Européia não pagam.
Em frente ao Palácio Real fica a Catedral de la Almudena, primeira catedral espanhola consagrada por um papa, João Paulo II, em 1993. Infelizmente ela estava fechada para reformas no dia em que a visitei.
Do lado esquerdo do Palácio Real está localizada a Plaza de Oriente (foto acima). Pequena e sem grandes atrativos, a praça serve como mediação para chegarmos ao imponente Teatro Real (a visita virtual do site é bacana).
Finalizamos as adjacências do Palácio Real com o Campo del Moro. Um lindo parque com as habituais fontes, estátuas e belas vistas.
Indo em direção ao centro da cidade chegamos ao Puerta del Sol, o ponto mais movimentado e agitado da cidade. A histórica praça é enriquecida pelo famoso cartaz do Tio Pepe, uma estátua de Carlos III (a cavalo, obviamente) e a fachada da Casa de Correios.
Palco de cortejos, touradas, julgamentos da Inquisição e execuções públicas, atualmente Plaza Mayor é um tranqüilo e aconchegante local para tomar um café e comer churros ao entardecer.
Ir a Madrid e não visitar o Prado é como ir em Paris e não conhecer o Louvre. Imperdoável. Com dezenas de obras de Goya e Velázquez, o museu ainda traz um amplo acervo de pinturas européias e esculturas.
LEMBRETE: O Prado constantemente está com uma exposição temporária, quando lá estive era acerca do Renascimento. Recomendo vividamente a compra a entrada das duas. Aqui você encontra a tabela de preços e outras informações úteis.
Por mais que o Prado possua As Meninas e Os Fuzilamentos de 3 de Maio, por exemplo, não posso negar que gostei bem mais do Thyssen-Bornemisza. O barão que concede o nome ao museu simplesmente é dono de uma coleção que faz um panorama da pintura ocidental entre os séculos XIV e XX. Passamos por todas as escolas importantes até desbocar na ininteligível Arte Contemporânea. Horários de funcionamento e preços.
Não visitei o Centro de Arte Reina Sofia, logo não vi Guernica, a obra-prima do local. O Centro conta ainda com muitas outras pinturas de Picasso e Miró. Informações gerais.
PS: Esse post está sujeito a alterações. Conto com a sua colaboração para enriquecer esse guia.
“Em todo o mundo há museus a mostrar artistas contemporâneos chineses. Os estrangeiros começaram a aprender coisas sobre os artistas chineses e perceberam que alguns trabalhos são muito valiosos”. Para dar razão ao discurso de Wang Qingsong voltamos a falar de artistas chineses (até porque falar das Olimpíadas, sem ser para esculhambar ou frescar, tá difícil).
Liang Yuanwei, formada na Central Academy of Fine Arts, nasceu em Xi’An e hoje, aos 31 anos, é mundialmente conhecida por suas pinturas e fotografias. Assim como Qingsong, Liang faz uma obra mais ocidentalizada e justifica: “O que é chinês em mim faz parte de mim e não posso tirá-lo. Mas a minha forma de pensar é mais ocidentalizada do que orientalizada. Foi uma questão de educação. A minha geração aprendeu inglês muito cedo, começou a ler traduções dos Nobel [da literatura], leu Schopenhauer, Kafka. Isso tornou-se fundamental para a arte contemporânea. O conhecimento contemporâneo é muito ocidentalizado.”
A partir de pedaços de panos (lençóis, toalhas e roupas) de sua família, de seus amigos e dela mesmo, Liang fez pinturas reproduzindo fielmente esses tecidos. “Uso tecidos já feitos para que se perceba que estou interessada não na concepção do desenho, mas no resultado. Não há uma pincelada que cubra outra. Não se apagam erros. Volto ao princípio quando os faço”. A seguir dois quadros do trabalho 50 pieces of life, de 2004/2005.
Ainda em 2005, Liang faz uma de suas obras mais conhecidas, Don’t Forget to Say you Love Me. Ela mesma explica a idéia do trabalho: “Um curador disse-me para ser famosa devia ser fotógrafa, sobretudo sendo mulher. Em ‘Don’t Forget’ fotografei as posições em que os homens nos põem depois de fazer amor”.
Esses dias vi o mais recente longa de Michel Gondry (dos aclamados Human Nature, Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças e The Science of Sleep), Be Kind Rewind. A premissa do filme é bem interesse: a personagem de Jack Black recebe uma descarga elétrica, ficando assim por certo tempo magnetizado, e acaba por desmagnetizar todo o acervo da videolocadora que seu amigo está encarregado de administrar. À beira da falência, e agora com todo o seu estoque apagado, os amigos têm a idéia de fazer versões “suecadas” (neologismo criado pela dupla) dos filmes, ou seja, reencenar as fitas que os clientes gostariam de assistir, para alavancar as vendas do estabelecimento.
Acredito que esse mote serve como metáfora para uma fatia da Internet (vejo, por exemplo, as “regras da web 2.0” no universo da “suecagem”). Além disso, os filmes “suecados” são releituras, novas obras derivadas de outras, bem aos moldes da cultura do compartilhamento. Da mesma forma, na película vemos também a aspiração que os clientes têm de aparecer nos filmes (se esse narcisismo exacerbado não é um sintoma da contemporaneidade, pelo menos é nesta que ele se faz mais presente).
Todavia, para além desses devaneios psedo-intelectuais, o filme é engraçado e consegue ser uma singela homenagem ao Cinema. Não sensibiliza como um Rosa Púrpura do Cairo, nem arrebata como um Cinema Paradiso, mas também não faz feio, longe disso. Por isso, fica a dica, dia 03 de Outubro não deixe de ir assistir Be Kind Rewind.
Para não perder a viagem vou falar de Wang Qingsong. Nascido em 1966, Qingsong é um dos expoentes da arte contemporânea chinesa. Sua obra é fortemente influenciada pela Pop Art, de Andy Warhol, e, principalmente, pela abertura econômica chinesa nos meados da década de 1970 e a torrente consumista que invadiu o país desde então. Trabalhando essencialmente com fotos posadas, encenadas, Qingsong se considera fotojornalista e justifica: “No princípio muitas pessoas acham que eu estou a contar uma história, a fabricar estas imagens. Mas à medida que vão vendo melhor percebem que são histórias verdadeiras que ali estão. A minha arte é mais foto-realista. Como as minhas fotos são inspiradas na realidade, as pessoas começam a perceber melhor porque passam por coisas semelhantes. Se nunca se esteve cá, pode ser muito intrigante; mas os chineses que passaram por isto sabem o que estou a tentar dizer.” E conclui, sou “um artista que descreve as mudanças na China”.
A seguir alguns de seus trabalhos:
Thinker, de 1998, é um das primeiras obras de repercussão de Qingsong.
Duas estações de metrô são muito requisitadas pelos estrangeiros aqui em Lisboa. A Baixa-Chiado é mais procurada pelos gringos que estão férias. Já Restauradores, por sua vez, é solicitada por quem precisa regularizar sua situação em Portugal. Sendo o centro da cidade na Baixa-Chiado, vivo naquela estação; em Restauradores quase nunca tinha parado.
Como vou ficar mais um semestre estudando na Universidade Nova de Lisboa tive que tirar um cartão de residência. Após passar algumas horas no SEF fiquei mais um bom tempo esperando o metrô. Foi lá que conheci a arte de Nadir Afonso. Confira algumas de suas obras que adornam a estação:
Afonso, pelo o que leio, quis “expressar, mediante representações simbólicas, uma homenagem de Lisboa às demais capitais metropolitanas”. Nobre projeto, todavia, mesmo sabendo tratar-se de “representações simbólicas”, fiquei com a sensação de que se os painéis não tivessem nome poderiam ser QUALQUER COISA. E você?
Guernica é definitivamente um dos quadros mais importantes e emblemáticos do século XX. No vídeo a seguir temos uma experiência singular: um tour em 3D pela pintura mais famosa de Pablo Picasso.
Adoro assistir filmes que já vi. Perdi a conta de quantas vezes revi O Poderoso Chefão, Indiana Jones e a Última Cruzada, Tempos Modernos, Perfume de Mulher, De Volta para o Futuro, Laranja Mecânica, Notting Hill, entre outros. Cada nova visita uma nova descoberta, um detalhe que havia passado desapercebido na vez anterior. Amnésia, nesse aspecto, é um filme singular. Já mudei minha opinião sobre a índole do protagonista, Leonard, umas quatro vezes. Assim como na literatura, os bons filmes permitem que cada espectador faça uma leitura diferente da obra.
Essa semana vi The Dark Knight. Mesmo com sua câmera carrosel, uma Rachel Dawes (assim como a anterior) sem sal e um Duas-Caras meia-boca, gostei muito do filme. Cenas como a que o Coringa conta como conseguiu suas cicatrizes; a que ele explode um hospital; ou quando faz seu discurso final já valem o ingresso. Sim, o filme vale pela personagem de Heath Ledger. O longa perde bastante em densidade e energia quando o Coringa não está em cena.
“Essa fabulação tem um fim político preciso, i. é: combater o mal absoluto tem um custo, que consiste em viver nas sombras. Esse é o preço pago por Batman, mas, se formos pensar bem, há um outro personagem atual que pode reivindicar tal papel, e atende por George W.”
E conclui:
“Dizem que este é o Batman de Frank Miller (e o Coringa também). Talvez seja isso mais que tudo. Aquele ‘Sin City‘ já era isso e não engoli de jeito nenhum. É um investimento no pior, na baixeza, na podridão.”
“Resumindo minha impressão, o novo Batman é chato, ruidoso e reacionário.”
“No Brasil, Banner é perseguido pelos corredores da favela da Rocinha. Quando chega aos EUA, o personagem é obrigado a fugir através dos corredores de uma belíssima universidade. É evidente que os livros simbolizam a civilização. Os barracos, por sua vez, representam a barbárie. Assim, é impossível não fazer duas perguntas. No Brasil há favelas porque não existem livros? Nos EUA não existem favelados por causa das bibliotecas?”
Mais adiante:
“Banner, o norte-americano, não desejava o poder que adquiriu e passa o tempo todo tentando se livrar dele. Já o soldado de origem russa faz qualquer coisa para adquirir condições de confrontar Hulk. Quando consegue o que deseja, o monstro russo ataca indiscriminadamente as pessoas nas ruas de New York. Em razão disto, o bom moço aceita o sacrifício de libertar o Hulk para defender a população.”
Interessantes e válidas leituras. Contudo, em ambos os casos, fico com a sensação daqueles discursos esquerdistas onde é possível ver a “mão ossuda, peluda e fedorenta do imperialismo” em todos os cantos. Já do outro lado da linha do Equador tem colunista americano (que deve ser considerado pelo Araújo e pelo Ribeiro como “direitista com sentimento de culpa”) dizendo que essa temporada é “do verão da culpa branca”.
Não vejo o Batman como Bush, nem o Coringa como Bin Laden. Todavia, claro, é possível achar argumentos que validem essa teoria. Como qualquer outra. Entrando no jogo, se fosse para enviesar pela política norte-americana diria que o Batman (que trabalha nas trevas) seria a encarnação de Dick Cheney e Harvey Dent o Barack Obama (depositário de toda a confiança e esperança da população e que no fim…).
Será que o Departamento de Estado Americano interfere em todos os blockbusters? Será que nada é gratuito, tudo é político, possui uma mensagem cifrada e eu que estou sendo ingênuo demais? Será que se esses mesmos filmes fossem espanhóis, franceses ou mesmo ingleses, eles teriam por parte da crítica essa mesma leitura?
Domingo, dia morto por definição, nada melhor do que (re)ver um filme. Assisti Rope (Festim Diabólico, no Brasil, e A Corda, em Portugal), de Alfred Hitchcock. Considero esse longa um dos melhores do gênio do suspense. Uma daquelas fitas que sempre que vemos novamente algo novo nos salta aos olhos. A seguir algumas considerações.
Quanto à forma
Rope é um desbravador. Utilizando a técnica Technicolor, esse é o primeiro filme a cores de Hitchcock. Rodado em 1948, esse é o famoso longa em que o diretor tentou fazer apenas um longo plano-seqüência. Devido às limitações da época (as câmeras gravavam apenas cerca de 11 minutos por vez), a película conta com 10 raccords: 5 cortes e 5 fusões. Somos brindados então com excelentes planos, como o cena em que Brandon leva a corda para a cozinha; quando Phillip é confundido com David e quebra o copo; o tenso e desnorteador plano final; e, obviamente, a antológica cena em que Rupert faz a reconstituição do crime e a câmera subjetiva acompanha seu raciocínio.
Câmera esta que é a personagem mais importante da trama. Seguindo seu deslocamento, em certos momentos damos mais valor ao que está fora de campo do que o que está enquadrado. Poucas vezes na história do Cinema os espectadores foram tão condicionados e manipulados.
Quanto ao conteúdo
Apesar das suas inovações formais, o diferencial do filme está nas discussões filosóficas dos protagonistas. Brandon e Phillip acreditam serem pessoas sobre-humanas, situados acima da moral e das convenções sociais, além do bem e do mal, tal qual a tese nieztschiana do Super-homem. Esse conceito é desenvolvido de forma simples em Crime e Castigo, de Dostoiévski. Raskolnikóv, protagonista do romance, acredita que a raça humana é dividida em duas categorias: os homens ordinários e os extraordinários. Aqueles vivem na obediência e não possuem o direito de desrespeitar a lei. O segundo grupo teria o direito não oficial de burlar essas regras “no caso especial que assim exija a realização da sua idéia, a qual pode por vezes ser útil ao gênero humano” e conclui: “não somente todos os grandes homens, mas todos os que se elevam um pouco acima do nível comum, que são capazes de dizer alguma coisa de novo, devem por sua própria natureza, ser naturalmente criminosos”.
Brandon e Phillip realizam o que julgam ser o crime perfeito, uma verdade obra de arte. Como tal, acreditam que ela precisa ser admirada, e fazem um jantar com familiares do morto e Rupert Cardell, um antigo professor. Rupert, interpretado pelo sempre ótimo James Stewart, é uma personagem ambígua. Destila irônia e nunca sabemos quando está falando sério. Dessa forma permite várias leituras de seu caráter. Encontrei duas interessantes. A primeira é de Peter J. Dellolio. O autor julga que a película foi fortemente influenciada pela Segunda Guerra Mundial. Brandon, homossexual (sim, a quê você acha que a frase Then his body went lipm… I knew it was over… I felt a sense of tremendous exhilariation se referia?), artista frustrados e fazendo uma leitura equivocada das idéias de Nieztsche, seria o link com Hitler e o nazismo. Rupert, repesentando o espectador, seria a democracia, a justiça. Um tribunal de Nuremberg de 1,91 m e olhos azuis.
João Bénard da Costa, em texto para a Cinemateca, por sua vez, defende que Rupert não apenas considera-se um homem extraordinário como realiza TRÊS crimes perfeitos: “matou David, por interposta pessoa e pelos frutos das suas teorias ( foi o autor moral e intelectual desse crime) e vai matar Phillip e Brandon entregando-os à polícia. E por nenhuma dessas mortes pode ser responsabilizado. Porque não foi o autor material da morte de David e porque está do lado da sociedade (e da justiça) nas mortes futuras de Phillip e Brandon” (lembremos que em determinado momento Rupert diz You’re gonna die, Brandon. Both of you).
Talvez essas leituras não sejam de todo contraditórias e excludentes, todavia, gosto muito mais da segunda. E você?
Última quarta-feira, 25 de Junho de 2008, foi inaugurado o primeiro teatro online de Portugal. O TOA (Teatro Observatório da Amadora) pretende ser “um projecto inovador no panorama cultural e multimédia.” Composto por dois pisos, no 0 existe um salão de chá, um auditório, uma pequena loja/bilheteira de produtos associados e merchandising, e um escritório de produção com sala de reuniões. Já no piso 1 há uma filmoteca, uma imaginoteca para ateliers, oficinas e “actividades pedagógicas de educação pela arte”, além dos essenciais banheiros. Lembrando que esses espaços são exclusivos na Internet.
Achei o site bem fraquinho, mas como programação regular está marcada apenas para Setembro, torçamos para que melhore. Hoje, às 22h, está programado a 5ª emissão da PTV, com o tema Planos de Férias. A seguir, o primeiro vídeo da PTV, 12 Desejos Para o Ano Novo.