Hunger, 2008

novembro 5th, 2008 § 0

Mesmo após uma semana e meia do término do festival um longa não sai da minha cabeça: Hunger, de Steve McQueen. Mas antes de falarmos do filme, dois parênteses.

O primeiro. Apenas hoje, dez dias após o seu anúncio, é que fui ler com atenção os vencedores do DocLisboa 2008. Foram entregue ao todo doze prêmios. [Mania feia dos festivais de hoje em dia em querer premiar o maior número possível de filmes...]

Bab Sebta, Vencedor da Competicão Nacional
O longa dos jovens diretores Pinho e Lobo é bem superior a End of the Rainbow

Os grandes vencedores foram Bab Sebta, de Pedro Pinho e Frederico Lobo, eleito o melhor documentário português de longa-metragem e que aborda o desejo de alguns africanos em aportar na Europa; e End of the Rainbow, de Robert Nugent, escolhido melhor longa-metragem internacional e que mostra a extração do ouro na enigmática Guiné-Conacri por uma multinacional. Mesmo com pontos de partida diversos, o tema central de ambos os filmes é o mesmo: a exploração do homem pelo homem. São filmes sobre as esperanças, são filmes sobre os sonhos, sonhos que insistem em resistir a dura realidade. São filmes políticos e urgentes. Rená falou do Bab Sebta no DocBlog.

O Steve McQueen estadunidense
Descanse em paz

Segundo parêntese. Vocês conhecem Steve McQueen, o diretor de Hunger? Até hoje pensava que o realizador dessa película era o veterano ator estadunidense de filmes como Quando Explodem as Paixões, Sete Homens e Um Destino, Fugindo do Inferno, O canhoneiro de Yang-Tsé, Crown, O Magnífico, Bullit ou Inferno na Torre. Vocês imaginam então o choque que foi descobrir que na próxima sexta-feira (7) completarão 28 anos que o Steve McQueen desses filmes já não está entre nós. Peço um minuto de silêncio em sua memória.

Fim do segundo parêntese.

Steve McQueen britânico
Sem contar o Spike Lee, quantos diretores negros de Cinema você conhece?

O ganhador da Caméra d’Or (prêmio para cineastas debutantes) deste ano em Cannes, Steve McQueen, é um renomado artista inglês que, entre outras atividades, produziu durante sua carreira pequenos vídeos experimentais e ganhou o prêmio Turner Prize em 1999. Aos trinta e nove anos realizou seu primeiro longa-metragem. Hunger remonta as últimas seis semanas de Bobby Sands, ativista do IRA que liderou a famosa greve de fome de 1981 contra o tratamento que recebiam dos agentes prisionais britânicos e em busca do estatuto de prisioneiro político.

Os inovadores

De tempos em tempos os espectadores de Cinema são surpreendidos com toques de genialidade de alguns excêntricos diretores. Foi assim com Méliès e seus efeitos especiais; com a noção de continuidade obtida por Williamson e Porter; com a tensão gerada pela montagem paralela de Griffith; com a dialética de Eisenstein; com a fotonovela cinematográfica de Chris Marker; com os flashbacks de Citizen Kane; com a fragmentação da narrativa de Resnais; com os falsos raccord de Godard; com o jogo narrativo de Pulp Fiction. É essa frescura inovadora que permeia todos os noventa minutos de duração de Hunger.

Hunger, o filme do ano
Michael Fassbender (esq.) está muito bem no papel de Bobby Sands

A silenciosa, e angustiante, cena em que o guarda limpa os dejetos dos presos com um esfregão; um moribundo Bobby sendo velado por uma câmera que mais assemelha-se a um urubu ou a própria Morte, à espera da sua próxima vítima; o, desde já, antológico plano-seqüência em que Bobby explana suas razões para iniciar a greve de fome ao reverendo. Não há planos gratuitos na película. Citei três cenas, mas poderia discorrer sobre cada plano exaustivamente e ainda não esgotaria as possibilidades de leitura das cenas. Isso sem falar da estrutura narrativa, onde “trocamos” de personagem sem aviso prévio e sem retorno, algo totalmente novo (pelo menos pra mim).

Steve McQueen pode nunca mais finalizar um filme. Seu nome já está na História do Cinema.

Veja uma entrevista do diretor.

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