Série DocLisboa 2008
- The Last Letter e O Mistério do Samba
- Be Like Others, O Segredo, O adeus à brisa e Ruas da Amargura
- We (Wo Men) e Gonzo: The Life and Work of Dr. Hunter S. Thompson
- Novela na Santa Casa, Territórios de Passagem Culturgest, Casa de Cima, Outra Memória e Dificilmente o que Habita Perto da Origem Abandona o Lugar
- Parlez Moi d’Amour, The Red Race, El Sastre, All White in Barking e Afterschool
- Hunger, 2008

Após uma pausa para recuperar as forças da maratona de filmes, seguimos com rápidos comentários sobre os filmes que vi no Festival.
Parlez Moi d’Amour (Tell Me About Love), de Alexia Bonta. **

Em um hospital, duas velhas falam sobre amor. Apesar de estarem à beira da morte, relembram antigos amores com muita vivacidade e altas doses de humor. Discorrem também sobre o presente com sobriedade e austeridade. Curto – conta apenas com 14 minutos -, o filme deixa a platéia com um gostinho que quero mais. Melhor assim.
Faz-se necessário um parêntese sobre a diretora. Aos 26 anos, a debutante Alexia, com toda sua timidez e charme, ganhou, de longe, na opinião deste humilde escriba, o prêmio de musa do Festival. Infelizmente não consegui tirar uma foto decente da belga e na internet achei apenas esta, que não condiz com toda sua beleza. De qualquer forma fica aqui o registro.
The Red Race, de Chao Gan. ***

Não sei quantas medalhas a China levou em ginástica nestas Olimpíadas, contudo sei que não foram poucas. Fico sempre impressionado com aqueles pequenos notáveis desafiando as leis da gravidade. A fabricação desses prodígios é o tema do pertinente documentário de Gan. São crianças de 4, 5, 6 anos de idade sendo submetidas a treinamentos desumanos. Durante uma hora vemos meninos e meninas serem xingados, humilhados e até espancados por treinadores que não fariam feio frente ao Sargento Hartman, de Full Metal Jacket. E a pressão para tornarem-se grandes atletas e ganharem medalhas transpõem o ginásio. Pais e mães fazem uma lavagem cerebral nessas pobres crianças. Fiquei imaginando como eram os treinamentos na ex-União Soviética.
No Youtube existe um vídeo de dez minutos do longa. O problema é que é dublado em espanhol, tem narração e musiquinha sentimentalóide. Enfim, serve como um péssimo convite para assistir ao bom The Red Race. Todavia, como acho que o acesso ao filme será difícil, fica a sugestão.
El Sastre (The Tailor), de Óscar Perez ***

Mohamed é um emigrado paquistanês que trabalha em um dos bairros mais pobres de Barcelona como alfaiate. Singh é seu ajudante. Acompanhamos a conflituosa relação patrão-empregado e empresa-cliente.
Mohamed é um trambiqueiro de mão cheia. Engana os clientes, a Singh e a si próprio. Quando estão sós (mas com a presença da câmera, é óbvio), supondo que o diretor não sabe a língua que estão falando, os migrados desatam a falar do filme e do diretor. Perez, muito espirituoso, aproveita-se disso e faz um curta hilário.
All White in Barking, de Marc Isaacs ****

Barking é o subúrbio londrino onde existe a maior incidência de imigrantes na Inglaterra. Susan e Jeff são um casal caucasiano que moram há anos na região e são impelidos pela equipe de filmagem a jantarem com os vizinhos nigerianos. Dave é um conservador que milita pelo partido de extrema-direita, o Partido Nacional Britânico. O judeu Monty é um sobrevivente do Holocausto que mantém uma relação afetuosa com a africana Betty.
O filme faz parte de uma série de seis episódios da BBC chamada White. Com as vantagens (e desvantagens) de ser um produto televisivo, All White in Barking é um excelente documentário sobre a tolerância e a questão do Outro. Isaacs foi muito feliz na escolha do “elenco”, expondo contradições inerentes do preconceito e obtendo ótimas tiradas.
Dave possui aversão a estrangeiros (negros em especial), mas suas filhas namoram afro-descendentes e ele (Dave) possui um neto negro. “É do meu sangue, o que eu posso fazer?”, diz em determinado momento. Monty leva Betty no encontro anual dos sobreviventes do Holocausto. Entre olhares de desaprovação, somos brindados com o discurso mais lúcido do filme. Após o jantar na casa dos nigerianos, Susan (ou foi Jeff? já não me recordo) diz uma frase que é síntese do preconceito dissimulado: “different, BUT enjoyable.” Essa simples palavra faz toda a diferença.
Afterschool, de Antônio Campos

Sabe aqueles filmes que lhe escapa? Que você sente que não captou, que não estava na mesma sintonia? Aconteceu isso com Afterschool.
Eis a sinopse: “Robert é um jovem estudante note-americano numa Escola Preparatória de elite situada na Costa Este dos Estados Unidos que filma acidentalmente a morte trágica de duas colegas de turma. Após o acidente, as vidas das alunas são homenagedas através de um projeto audiovisual destinado a sarar rapidamente o luto da comunidade escolar. Além disso Frederick Wiseman quer fazer um documentário sobre o fato. Mas o trabalho em vídeo acaba por gerar um clima de desconforto e alimentar uma atmosfera de paranóia e suspeição entre os estudantes e os professores.”
A estréia do jovem diretor Antônio Campos – 21 anos – é o retrato de uma geração. A dele, a minha. Imagens de celular, Youtube e a própria Internet são personagens do filme. Durante a projeção lembrei de Elephant, de Gus Van Sant. Um filme curioso e incômodo, que merece uma revisita.