Série DocLisboa 2008
- The Last Letter e O Mistério do Samba
- Be Like Others, O Segredo, O adeus à brisa e Ruas da Amargura
- We (Wo Men) e Gonzo: The Life and Work of Dr. Hunter S. Thompson
- Novela na Santa Casa, Territórios de Passagem Culturgest, Casa de Cima, Outra Memória e Dificilmente o que Habita Perto da Origem Abandona o Lugar
- Parlez Moi d’Amour, The Red Race, El Sastre, All White in Barking e Afterschool
- Hunger, 2008

Começou nesta quinta-feira (16) o VI Festival Internacional de Cinema Documental. Durante onze dias mais de 175 filmes serão exibidos nas salas de cinemas do São Jorge, Londres e Culturgest.
Com 13 documentários, a China é o grande tema desta edição, que conta ainda com uma homenagem a Frederick Wiseman, o “maior documentarista vivo”, uma mostra sobre Moçambique, outra apenas com longas acerca de música, entre outros. Veja aqui a programação do evento. A seguir os filmes que vi ontem.

The Last Letter, de Frederick Wiseman. ***
Baseado em um capítulo do livro Vida e Destino, de Vasily Grossman, remonta a 1941, quando um gueto ucraniano é dominado pelos nazistas. Consciente da proximidade da morte, a velha Anna Semyonovna (Catherine Samie) resolve escrever sua última carta ao filho.
Temos apenas dois elementos em cena neste filme, Samie e suas sombras. Graças à bela fotografia de Yorgos Arvanitis, as penumbras ganham vida, tornando-se personagens na trama. Com muitos planos detalhe e super closes, acabamos por virar confidentes, cúmplices de Semyonovna. A velha ucraniana versa sobre o cotidiano da vila após a chegada dos alemães, sobre seus medos, seus amores, seus arrependimentos. O texto é excelente, denso e emocionante, sendo amplificado pela soberba interpretação de Samie.
A única contrapartida do longa é sua duração. The Last Letter acaba por perder muito da sua força e eficácia por extender-se por mais de uma hora. Mesmo assim, vale assistir apenas pelo último plano, quando Semyonovna vai às lágrimas e nos leva as lágrimas.

O Mistério do Samba, de Lula Buarque de Holanda e Carolina Jabor. ***
O Mistério do Samba fez sua estréia em Portugal em grande estilo. Sala lotada e muitos aplausos após o término da sessão. O filme, que está em cartaz no Brasil desde Agosto, é uma homenagem à Velha Guarda da Portela.
Hesitante no início e por vezes irregular, o longa de Lula perde ritmo com as intervenções maçantes de Marisa Monte e Paulinho da Viola (as primeiras, principalmente, são totalmente descartáveis). O carisma (e vigor) do longa está, obviamente, nos integrantes da Velha Guarda. São eles que nos fazem morrer de rir (Seu Argemiro, Tia Eunice, Surica) e nos emocionam (Tia Surica, Seu Jair do Cavaquinho). É impressionante a capacidade que eles possuem de criar lindos sambas em um piscar de olhos, assim como é desanimador saber que muitos desses perderam-se no tempo.
Muitas vezes lembrando o cult Buena Vista Social Club (1999), O Mistério do Samba goza ainda de uma qualidade rara nos filmes brasileiros: um excelente som.