The Last Letter e O Mistério do Samba

outubro 17th, 2008 § 0

"Em Outubro, o mundo inteiro cabe em Lisboa"

Começou nesta quinta-feira (16) o VI Festival Internacional de Cinema Documental. Durante onze dias mais de 175 filmes serão exibidos nas salas de cinemas do São Jorge, Londres e Culturgest.

Com 13 documentários, a China é o grande tema desta edição, que conta ainda com uma homenagem a Frederick Wiseman, o “maior documentarista vivo”, uma mostra sobre Moçambique, outra apenas com longas acerca de música, entre outros. Veja aqui a programação do evento. A seguir os filmes que vi ontem.

La Dernière lettre, 2002

The Last Letter, de Frederick Wiseman. ***

Baseado em um capítulo do livro Vida e Destino, de Vasily Grossman, remonta a 1941, quando um gueto ucraniano é dominado pelos nazistas. Consciente da proximidade da morte, a velha Anna Semyonovna (Catherine Samie) resolve escrever sua última carta ao filho.

Temos apenas dois elementos em cena neste filme, Samie e suas sombras. Graças à bela fotografia de Yorgos Arvanitis, as penumbras ganham vida, tornando-se personagens na trama. Com muitos planos detalhe e super closes, acabamos por virar confidentes, cúmplices de Semyonovna. A velha ucraniana versa sobre o cotidiano da vila após a chegada dos alemães, sobre seus medos, seus amores, seus arrependimentos. O texto é excelente, denso e emocionante, sendo amplificado pela soberba interpretação de Samie.

A única contrapartida do longa é sua duração. The Last Letter acaba por perder muito da sua força e eficácia por extender-se por mais de uma hora. Mesmo assim, vale assistir apenas pelo último plano, quando Semyonovna vai às lágrimas e nos leva as lágrimas.

A Velha Guarda da Portela, Marisa Monte e Zeca Pagodinho

O Mistério do Samba, de Lula Buarque de Holanda e Carolina Jabor. ***

O Mistério do Samba fez sua estréia em Portugal em grande estilo. Sala lotada e muitos aplausos após o término da sessão. O filme, que está em cartaz no Brasil desde Agosto, é uma homenagem à Velha Guarda da Portela.

Hesitante no início e por vezes irregular, o longa de Lula perde ritmo com as intervenções maçantes de Marisa Monte e Paulinho da Viola (as primeiras, principalmente, são totalmente descartáveis). O carisma (e vigor) do longa está, obviamente, nos integrantes da Velha Guarda. São eles que nos fazem morrer de rir (Seu Argemiro, Tia Eunice, Surica) e nos emocionam (Tia Surica, Seu Jair do Cavaquinho). É impressionante a capacidade que eles possuem de criar lindos sambas em um piscar de olhos, assim como é desanimador saber que muitos desses perderam-se no tempo.

Muitas vezes lembrando o cult Buena Vista Social Club (1999), O Mistério do Samba goza ainda de uma qualidade rara nos filmes brasileiros: um excelente som.

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