Rob Schneider em Portugal? Sim, o ator de besteiróis como Gigolô por Acidente, Animal, Eu os Declaro marido e… Larry (a lista é interminável), é o mais novo garoto-propaganda da Corticeiria Amorim. A maior produtora de rolhas de cortiça do mundo encabeça uma campanha contra as famigeradas rolhas de plástico. Talvez por sua praticidade, eficiência, baixos custos e produção em alta escala, as rolhas de plástico são as mais utilizadas em países como EUA e Austrália. No filme a seguir Schneider defende as rolhas de cortiça por seu aspecto “verde” (são biodegradáveis e recicláveis) e romantismo. Melhor do que muito filme de sua carreira.
Agosto é conhecido no Brasil como o mês do desgosto. Na Argentina, nossos hermanos acreditam que lavar a cabeça nesse mês é o mesmo que chamar a morte. Datas trágicas nesse mês não faltam: início da Primeira e da Segunda Guerra Mundial, lançamento das bombas atômicas em Hiroshima e Nagazaki. Ah, não esqueçamos que hoje completam 54 anos do suicídio de Getúlio Vargas.
Aqui em Portugal também existe bastante supertição relacionada a esse mês. Há até um ditado popular que afirma que casar em Agosto traz desgosto, uma vez que era nessa época em que “navegar era preciso”. Resultado: centenas de mulheres viúvas antes mesmo da lua-de-mel. Todavia, crendices à parte, Agosto é um dos meses mais aguardados em Portugal. Férias escolares, Verão, amores arrebatadores, festas e bailes no interior e o retorno dos emigrantes.
Sônia Bandeira, que interpreta Tânia no filme
É nesse cenário idilíco, materializado em algumas cidades de Beira Serra, interior luso, que muito se assemelha ao interior do Nordeste brasileiro, que se passa a ação de Aquele Querido Mês de Agosto, segundo longa do diretor português Miguel Gomes. Originalmente pensado como uma ficção acerca do triângulo amoroso entre pai, filha e o primo desta, que formam uma banda de baile que toca pelas cidades de Beira Serra durante Agosto. Caso ficasse apenas nessa premissa amor-impossível-entre-menina-do-interior-com-menino-da-cidade o filme provavelmente não seria lá grandes coisas. Mas, devido as dificuldades orçamentárias, Gomes teve a idéia de filmar tudo aquilo que lhe parecesse digno de registro. O que vemos então na primeira metade da película é basicamente um documentário: entrevistas com os moradores para a composição do elenco, captação de som, imagens de apoio, etc. A segunda parte é a ficção propriamente dita. Escolhidos os atores e as locações, Gomes filma a estória (bobinha) para qual tinha escrito o roteiro.
Filme é pontuado por canções de pimba, estilo que mais parece uma mistura de sertanejo com forró. Esse é Emanuel, o maior expoente do gênero.
Hoje passei um bom tempo tentando lembrar do último filme português que havia assistido… e cheguei a conclusão que, para além do inintelegível A Zona nunca assisti uma película do país de Manoel de Oliveira (o que é uma vergonha, bem sei). Mas, tirando pelo número de pessoas que estavam ontem na sala de cinema, a única que exibia o filme em Lisboa, fico com a sensação de que os portugueses, assim como os brasileiros, não gostam muito de filmes nacionais. Uma pena. Aquele Querido Mês de Agosto conta com estrutura narrativa sensacional e prende o espectador. O jogo ficção-documentário permeia todo o longa. Em várias ocasiões não sabemos se aquilo foi ou não encenado, se faz ou não parte da “ficção”: como no momento em que o pai da cantora oferece um jantar; ou na cena em que dois moradores da região conversam sobre suas impressões da experiência de serem atores amadores (essa, sem dúvida, é uma das mais belas cenas do filme). Sem contar as intervenções da equipe de filmagem (sim, ela também aparece), que soam terrivelmente (e hilariamente) ensaiadas.
Jean-Luc Godard em uma rara foto
Godard, em mais uma de suas centenas de frases de efeito, disse certa vez que “Todo grande filme de ficção tende ao documentário e todo grande documentário tende à ficção e, quem optar por um, encontrará necessariamente o outro no fim do caminho”. Sem definir-se entre ficção e documentário e com um humor peculiar, Aquele Querido Mês de Agosto, mesmo sem ser todo ele brilhante, encaixa-se perfeitamente nesse aforismo.
“Em todo o mundo há museus a mostrar artistas contemporâneos chineses. Os estrangeiros começaram a aprender coisas sobre os artistas chineses e perceberam que alguns trabalhos são muito valiosos”. Para dar razão ao discurso de Wang Qingsong voltamos a falar de artistas chineses (até porque falar das Olimpíadas, sem ser para esculhambar ou frescar, tá difícil).
Liang Yuanwei, formada na Central Academy of Fine Arts, nasceu em Xi’An e hoje, aos 31 anos, é mundialmente conhecida por suas pinturas e fotografias. Assim como Qingsong, Liang faz uma obra mais ocidentalizada e justifica: “O que é chinês em mim faz parte de mim e não posso tirá-lo. Mas a minha forma de pensar é mais ocidentalizada do que orientalizada. Foi uma questão de educação. A minha geração aprendeu inglês muito cedo, começou a ler traduções dos Nobel [da literatura], leu Schopenhauer, Kafka. Isso tornou-se fundamental para a arte contemporânea. O conhecimento contemporâneo é muito ocidentalizado.”
A partir de pedaços de panos (lençóis, toalhas e roupas) de sua família, de seus amigos e dela mesmo, Liang fez pinturas reproduzindo fielmente esses tecidos. “Uso tecidos já feitos para que se perceba que estou interessada não na concepção do desenho, mas no resultado. Não há uma pincelada que cubra outra. Não se apagam erros. Volto ao princípio quando os faço”. A seguir dois quadros do trabalho 50 pieces of life, de 2004/2005.
Ainda em 2005, Liang faz uma de suas obras mais conhecidas, Don’t Forget to Say you Love Me. Ela mesma explica a idéia do trabalho: “Um curador disse-me para ser famosa devia ser fotógrafa, sobretudo sendo mulher. Em ‘Don’t Forget’ fotografei as posições em que os homens nos põem depois de fazer amor”.
Em Lisboa ando a pé, de mêtro e, eventualmente, de ônibus. As rotas que faço diariamente, felizmente, já foram bem assimiladas, por isso não preciso ficar procurando o nome da rua toda vez que saio de casa. Todavia, quando cá cheguei, e também quando preciso ir em algum novo lugar, é sempre o mesmo perrengue. Ou eu faço uma pesquisa antes no GoogleMaps ou com certeza perderei um bom tempo procurando os nomes das ruas.
Cruzamento localizado no Rio de Janeiro
Não é que falte informação em Lisboa, muito pelo contrário, talvez por ser uma cidade turística, Lisboa é recheada de mapas. O problema, minha implicância no caso, são com as placas das ruas. Em Fortaleza praticamente todo cruzamento tem um postezinho na esquina com o nome das ruas que fazem aquele cruzamento (como na foto acima), algo instrutivo, simples e, principalmente, eficaz, afinal pode ser visualizado a metros de distância. Aqui, em Lisboa, caso você queira saber o nome da rua que faz cruzamento com a que você está, você é obrigado a entrar na rua, porque a placa com esta informação está enterrada na parede de um prédio, e isso quando há placa. Fico imaginando como fazem os turistas que alugam carros. GPS aqui é pré-requisito básico.
Mas, para além desse detalhe, não podemos negar que Portugal possui um sistema de sinalização MUITO superior ao brasileiro. São ao todo 22 secções de placas. As mais interessantes são os símbolos de indicações Turísticas, Culturais, Desportivas e Geográficas e Ecológicas. Dessa última reproduzo, respectivamente, a gruta, a praia, o parque de merendas e o percursos pedestres (nesta última não parece que o cidadão da bengala está dando uma discreta rasteira na moça que segue logo atrás?)
Nas ruas, até agora, vi duas placas curiosas: “trânsito proibido a peões, a animais e a veículos que não sejam automóveis ou motociclos”.
Esses dias vi o mais recente longa de Michel Gondry (dos aclamados Human Nature, Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças e The Science of Sleep), Be Kind Rewind. A premissa do filme é bem interesse: a personagem de Jack Black recebe uma descarga elétrica, ficando assim por certo tempo magnetizado, e acaba por desmagnetizar todo o acervo da videolocadora que seu amigo está encarregado de administrar. À beira da falência, e agora com todo o seu estoque apagado, os amigos têm a idéia de fazer versões “suecadas” (neologismo criado pela dupla) dos filmes, ou seja, reencenar as fitas que os clientes gostariam de assistir, para alavancar as vendas do estabelecimento.
Acredito que esse mote serve como metáfora para uma fatia da Internet (vejo, por exemplo, as “regras da web 2.0” no universo da “suecagem”). Além disso, os filmes “suecados” são releituras, novas obras derivadas de outras, bem aos moldes da cultura do compartilhamento. Da mesma forma, na película vemos também a aspiração que os clientes têm de aparecer nos filmes (se esse narcisismo exacerbado não é um sintoma da contemporaneidade, pelo menos é nesta que ele se faz mais presente).
Todavia, para além desses devaneios psedo-intelectuais, o filme é engraçado e consegue ser uma singela homenagem ao Cinema. Não sensibiliza como um Rosa Púrpura do Cairo, nem arrebata como um Cinema Paradiso, mas também não faz feio, longe disso. Por isso, fica a dica, dia 03 de Outubro não deixe de ir assistir Be Kind Rewind.
Para não perder a viagem vou falar de Wang Qingsong. Nascido em 1966, Qingsong é um dos expoentes da arte contemporânea chinesa. Sua obra é fortemente influenciada pela Pop Art, de Andy Warhol, e, principalmente, pela abertura econômica chinesa nos meados da década de 1970 e a torrente consumista que invadiu o país desde então. Trabalhando essencialmente com fotos posadas, encenadas, Qingsong se considera fotojornalista e justifica: “No princípio muitas pessoas acham que eu estou a contar uma história, a fabricar estas imagens. Mas à medida que vão vendo melhor percebem que são histórias verdadeiras que ali estão. A minha arte é mais foto-realista. Como as minhas fotos são inspiradas na realidade, as pessoas começam a perceber melhor porque passam por coisas semelhantes. Se nunca se esteve cá, pode ser muito intrigante; mas os chineses que passaram por isto sabem o que estou a tentar dizer.” E conclui, sou “um artista que descreve as mudanças na China”.
A seguir alguns de seus trabalhos:
Thinker, de 1998, é um das primeiras obras de repercussão de Qingsong.