Hulk, Batman e a manipulação da realidade

Leonard, mocinho ou bandido?

Adoro assistir filmes que já vi. Perdi a conta de quantas vezes revi O Poderoso Chefão, Indiana Jones e a Última Cruzada, Tempos Modernos, Perfume de Mulher, De Volta para o Futuro, Laranja Mecânica, Notting Hill, entre outros. Cada nova visita uma nova descoberta, um detalhe que havia passado desapercebido na vez anterior. Amnésia, nesse aspecto, é um filme singular. Já mudei minha opinião sobre a índole do protagonista, Leonard, umas quatro vezes. Assim como na literatura, os bons filmes permitem que cada espectador faça uma leitura diferente da obra.

A Piada Mortal

Essa semana vi The Dark Knight. Mesmo com sua câmera carrosel, uma Rachel Dawes (assim como a anterior) sem sal e um Duas-Caras meia-boca, gostei muito do filme. Cenas como a que o Coringa conta como conseguiu suas cicatrizes; a que ele explode um hospital; ou quando faz seu discurso final já valem o ingresso. Sim, o filme vale pela personagem de Heath Ledger. O longa perde bastante em densidade e energia quando o Coringa não está em cena.

Lendo resenhas acerca do filme, vi uma do sempre pertinente Inácio Araújo. Segue o trecho que mais me interessou:

“Essa fabulação tem um fim político preciso, i. é: combater o mal absoluto tem um custo, que consiste em viver nas sombras. Esse é o preço pago por Batman, mas, se formos pensar bem, há um outro personagem atual que pode reivindicar tal papel, e atende por George W.”

E conclui:

“Dizem que este é o Batman de Frank Miller (e o Coringa também). Talvez seja isso mais que tudo. Aquele ‘Sin City‘ já era isso e não engoli de jeito nenhum. É um investimento no pior, na baixeza, na podridão.”

“Resumindo minha impressão, o novo Batman é chato, ruidoso e reacionário.”

Hulk, arma americana para controlar corações e mentes

Essa leitura política da película lembrou-me outra resenha que vi dias desses, de Fábio de Oliveira Ribeiro, publicada no Observatório da Imprensa, acerca do Incrível Hulk.

“No Brasil, Banner é perseguido pelos corredores da favela da Rocinha. Quando chega aos EUA, o personagem é obrigado a fugir através dos corredores de uma belíssima universidade. É evidente que os livros simbolizam a civilização. Os barracos, por sua vez, representam a barbárie. Assim, é impossível não fazer duas perguntas. No Brasil há favelas porque não existem livros? Nos EUA não existem favelados por causa das bibliotecas?”

Mais adiante:

“Banner, o norte-americano, não desejava o poder que adquiriu e passa o tempo todo tentando se livrar dele. Já o soldado de origem russa faz qualquer coisa para adquirir condições de confrontar Hulk. Quando consegue o que deseja, o monstro russo ataca indiscriminadamente as pessoas nas ruas de New York. Em razão disto, o bom moço aceita o sacrifício de libertar o Hulk para defender a população.”

Interessantes e válidas leituras. Contudo, em ambos os casos, fico com a sensação daqueles discursos esquerdistas onde é possível ver a “mão ossuda, peluda e fedorenta do imperialismo” em todos os cantos. Já do outro lado da linha do Equador tem colunista americano (que deve ser considerado pelo Araújo e pelo Ribeiro como “direitista com sentimento de culpa”) dizendo que essa temporada é “do verão da culpa branca”.

Não vejo o Batman como Bush, nem o Coringa como Bin Laden. Todavia, claro, é possível achar argumentos que validem essa teoria. Como qualquer outra. Entrando no jogo, se fosse para enviesar pela política norte-americana diria que o Batman (que trabalha nas trevas) seria a encarnação de Dick Cheney e Harvey Dent o Barack Obama (depositário de toda a confiança e esperança da população e que no fim…).

Será que o Departamento de Estado Americano interfere em todos os blockbusters? Será que nada é gratuito, tudo é político, possui uma mensagem cifrada e eu que estou sendo ingênuo demais? Será que se esses mesmos filmes fossem espanhóis, franceses ou mesmo ingleses, eles teriam por parte da crítica essa mesma leitura?

E você, que leitura fez de Hulk e Batman?

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