Recebi um e-mail muito interessante comentando o post Piada de português. Segue o texto na íntegra.
Estereótipo português
Por Cláudio Reginaldo Alexandre*

Todo povo tem sua cultura e forma de viver, que nem sempre são entendidas e aceitas de imediato por outros povos. Por vezes essas diferenças fomentam a criação de estereótipos, como acredito que seja o caso dos brasileiros quando classificam os portugueses de “burros”.
Existem algumas teorias que procuram explicar a origem desse estereótipo e elas sempre estão ligadas à nossa colonização. Sabemos que a vinda da família real portuguesa para o Brasil mudou a história deste País, contudo, é perfeitamente plausível admitirmos que a chegada desses nobres provocou insatisfação numa camada da população, principalmente entre aqueles que foram obrigados a ceder suas residências para os nobres recém-chegados. Com toda uma carga de novas leis e novos costumes sendo impostos aos brasileiros, não é difícil imaginar que piadas procurando ridicularizar aquela gente surgissem.
Além do mais, os brasileiros que conseguiram embrenhar-se na corte eram, com certeza, pessoas mais vividas e mais experientes nas questões brasileiras que aqueles que estavam ali por herança e berço. É lógico imaginar que qualquer dificuldade desses nobres fosse vista como incompetência ou até desprovimento de inteligência.
As primeiras décadas do século XX colocaram um pouco mais de lenha nessa fogueira. Para o editor do “Jornal de Letras”, o jornalista português José Carlos Vasconcelos: “Houve uma forte emigração de portugueses de origem rural. Uma gente realmente muito ignorante e despreparada para a vida urbana”. Para Vasconcelos, as conhecidas piadas que tratam o português como “burro” derivam do contato com esse tipo de imigrante. “Mas há, também, no fundo dessas piadas, uma certa inveja por parte dos brasileiros, que tinham que admitir que aquele “burro”, apesar de tudo, prosperava e ganhava dinheiro.”
A situação neste período atingiu alto grau de rivalidade já que nos anos 30, os portugueses representavam um quinto da população do Rio e metade da população empregada. Para a historiadora Gladys Sabina Ribeiro, professora da Universidade Federal Fluminense, “A situação foi tal que Getúlio Vargas sancionou a chamada Lei dos Dois Terços, determinando que, em cada grupo de três trabalhadores, dois fossem brasileiros”. É óbvio que isso deve ter gerado um alto grau de preconceito contra os portugueses. O mesmo preconceito que atualmente existe contra os brasileiros que vão para Portugal disputar vagas de trabalho.
Sobre situações que podem ser classificadas como pouco inteligentes, pergunto se seria a genética a explicação as seguintes cenas que encontramos no Brasil e aqui mesmo em Fortaleza: um semáforo colocado embaixo de um viaduto; praças construídas no centro de balões (retornos, giradouros, rotatórias, etc.) sem nenhuma passarela ligando as calçadas às referidas praças; cavaletes colocados nas vagas de estacionamento destinadas a portadores de necessidades especiais com intuito de impedir que essas vagas sejam ocupadas indevidamente; funcionários de bancos ajudando pessoas a utilizarem os terminais de auto-atendimento; a votação é eletrônica, mas o comprovante de votação é um pedaço de papel minúsculo recortado de um caderno com o auxílio de uma régua; para citar algo histórico, na década de 70 o governo federal decretou reserva de mercado para produtos de informática sem que o país fosse auto-suficiente em suprimentos no setor e hoje vive tentando combater a pirataria; etc.
Encaremos, portanto, as situações descritas, tanto lá quanto cá, como uma boa piada, que sempre tem ingredientes de preconceito, instiga minorias e abusa de sarcasmo ou ironia, tudo com o intuito de provocar uma boa risada. E procuremos entender que um bom piadista, perde o amigo mas não perde uma boa piada, principalmente se for brasileiro, que consegue fazer piada dos próprios infortúnios.
Tudo continuará bem, enquanto encararmos tudo com bom humor.
*Cláudio Reginaldo é a favor do humor mas preocupado com a paz entre os povos.
Foto do Flickr de somethings hiding in here